O nome do amor

Na vida de todo alguém existiu outro alguém. Aquela pessoa que, sem esforço, vira significado de poemas e canções. Diante da inexplicabilidade do amor restam apenas lembranças. Não se pode dissecar o amor porque palavras não o esgotam. O amor carece de carne pra ser visto. Sentimento que se faz explicado no contato quente da vivência. A vida. Tenho por mim que nada sei do amor. Todavia, guardo dentro do peito a certeza de que ao fim da vida, certos alguéns me serão a imagem que tive do amor, do que foi amar. Pai, mãe, irmãos, amigos, sim, tantos e todos esses. Exigente de pele, o amor se torna calidamente melhor entendido quando ganha um nome. Amor não é o nome do amor. Cada um tem o seu. Eu tenho o meu.

Palavras

“Palavras… Quem escreve constrói um castelo, e quem as lê passa a habitá-lo”. A menina/moça de sorriso estonteante tem razão.

Palavras são crianças fugidias, andorinhas no crespúsculo de minha existência. Palavras são anjos que riscam minhas trevas com o giz da beleza. No texto impreciso, iluminam o que este autor gostaria de ter dito.

Palavras ainda invertebradas, escapam à sedução do poeta. Contraditoriamente, são minhas servas fieis, pois sabem que serão gastas, apagadas e muitas vezes descartadas. Imprecisas, palavras desafiam os caixilhos da minha literalidade.

Palavras são musas que amam compor minhas metáforas; às vezes, amigas crueis, nunca disponíveis quando quero desvendar a alma.

Palavras são teimosas. Altivas, resistem aos meus apertos e só se deixam dominar quando cortejadas e amadas. Surdas para meus galanteios afobados, cedem aos sussurros quando me atrevo a escrever com vagar. Amontoadas em frases longas, esgotam-se e morrem na ponta dos meus dedos.

Palavras expressam um pedacinho da vida quando percebem que procuro o pulsar ritmico da poesia. Deliciam-se quando me ajudam a dar forma a sentimentos informes, sensações inexatas e imaginações alvoroçadas.

Palavras são minhas parceiras humildes. Sem dar conta, aceitam jazer esquecidas nos livros que nunca serão escritos, nas cartas íntimas e nos poemas esquecidos.

Ando crescentemente enamorado das palavras. Aprendo a cortejar os substantivos e a abraçar os adjetivos. Quero fecundar o texto com verbos criativos. Desejo gerar filhos que sobrevivam aos meus anseios de imortalidade. Se, incapaz de uma obra prima, minhas poucas palavras celebram o meu fascínio de viver.


Doçura

Existem pessoas como a cana: mesmo postas na moenda, reduzidas ao bagaço, só sabem dar doçura.

Amar

Não sei explicar as razões de amar. Não sei dizer os porquês da minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre amar é provisório. Minhas convicções vacilam. Todas as certezas são, decididamente, vagas.

Sei tão somente que amar se tornou a minha meta, o meu norte, a minha nostalgia, o meu horizonte, o meu atracadouro. Empenhei o futuro por seguir os seus passos invisíveis. No dia em que amei pela primeira vez, a extensão do meu meridiano se alongou, os retalhos do meu mapa se encaixaram, caíram os tapumes da minha estrada, o ponteiro da minha bússola se imantou.

Sei tão somente que amar se fez residente no campus dos meus pensamentos. Presente nos vôos da minha imaginação, virou um doce ponto de interrogação. Causa de toda inquietação, tornou-se a fonte de minha clarividência.

Sei tão somente que amar se desfraldou como bandeira sobre os meus ombros. E o cilício, as purgações, os sacrifícios, tudo foi substituído por desassombro. No porão da tortura, nos suplícios culposos, achei um ambulatório. Os livros contábeis onde se registravam meus erros foram rasgados. As punições, suspensas.

Sei tão somente que amar ardeu o delicado filamento que acende a luz dos meus olhos. Amar foi o mourão que marcou o outeiro de minha alma como um jardim. Amar é o badalo que dobra o sino do meu coração; o alforje onde guardo os acertos e desacertos do meu destino.

Sei tão somente que amar me fascina quando refrata luz. Do ato de amar vem o encarnado que tinge minha face com o rubor do sol. Seu amarelo me brinda com o açafrão do mundo do mistério; e o roxo me colore de púrpura real. Seu branco é lunar e me prateia. Seu preto me conduz até o nanquim celestial. Por sua causa, espelho o azul dos oceanos mais longínquos.

O que dizer de amar? Tão pouco! Espero, tão somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha reverência.


Diálogos com a tristeza – 2º Ato

– E as partidas?
– São excelências de significados daquilo que fica.

– E o choro?
– Toda lágrima é correspondência da alma que grita.

– E o abandono?
– Desamor que esconde atrás da dor a vontade da entrega desmedida.

– E a solidão?
– Retirada estratégica de nós mesmos para o outro eu habitar.

– E o fim?
– Experiência máxima das vivências saboreadas.


Diálogos com a tristeza – 1º Ato

– Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente.

– Uma vida inteira é muito tempo mesmo. Então que nos amemos daqui até o final. Dispenso seu amor em meu passado, ele é irrevogável.


Eu e o espelho

“Dentro mim há uma sede de eterno, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa. O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, emoções demais; sou antes um inconformado, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”.

Deixei o espelho falando sozinho.


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