Quem é você, América Latina?

Quem é você, América Latina? De Povos platinos, andinos, caribenhos, tropicais, uma massa informe de homens e mulheres completamente diferentes em sua cultura, política e ideologia. O qual apenas dois fatores fazem-na uma só: a língua e a economia. A débil economia monopolizada há séculos por estrangeiros e governos ditatoriais que nunca se preocuparam de verdade com sua população.

Quem é você, América Latina? De espanhóis, portugueses e franceses colonizadores, maias, astecas, andinos, tupis-guarani massacrados e africanos escravizados. Povos que lutaram com unhas e dentes por um pedaço de terra, alguns para plantar, outros apenas para admirar seus domínios a perder de vista.

Quem é você, América Latina? De negros, brancos, mulatos, índios, orientais, mamelucos, cafuzos e todas as mestiçagens capazes de existir. Uma terra de muitos, dominada por poucos, entendida por ninguém.

Quem é você, América Latina? De revoluções, golpes, contragolpes, ditaduras e, por vezes, democracia. Democracia essa muito fragilizada, porque seu povo fora rechaçado do processo político ao longo da História, desde sua colonização até a contemporaneidade.

Quem é você, América Latina? De samba, tango, reggae, bolero, mambo, cumbia e todos os ritmos que o corpo caliente pode dançar, expressar, dizer, sentir, movimentar. Um ritmo surdo que toca em descompasso, sem saber se dançamos e cantamos por pura alegria ou porque temos medo de parar de sorrir e acabar chorando por perceber a desigualdade que impera. Como uma máscara que foi posta no carnaval e decidiu-se usá-la para o resto da vida.

Quem é você, América Latina? De Vargas, Perón, Fidel, Pinochet e tantos outros governantes incompreendidos, paradoxais, heróis e vilões, mocinhos e bandidos, amigos e inimigos, civilização e barbárie. Homens que pareciam governar conforme seu estado de humor, com uma mão dá a todos o que lhe é por direito, e com a outra retira em dobro.

Quem é você, América Latina? De povos que dizem odiar política, mas não fazem outra coisa na vida a não ser lutar por seus ideais, por sobrevivência, um pouco mais de dignidade. Lutam para fazer parte da América Latina, para serem considerados habitantes e cidadãos desta terra sempre governada por povos do além mar ou daqueles que vêem do norte.

Quem é você, América Latina? De miséria e riqueza, convivendo juntas, uma dependendo da outra para existir, sem com isso convergirem. De homens sedentos por riquezas, enquanto outros sedentos por água, de pessoas que querem prosperar, enquanto outras só querem sobreviver, de alguns que só querem mandar, enquanto muitos são obrigados a obedecer.

Quem é você, América Latina? De gritos e sorrisos misturados é um só coro, pedindo ajuda e ao mesmo tempo implorando para que nos deixe em paz. Pessoas que tem medo de dizerem o que sentem, ou então esqueceram que são capazes de se impor perante as desigualdades. Mas não pense que é culpa delas, séculos de estupros morais fazem as pessoas esquecerem quem são realmente.

Quem é você, América Latina? De nações irmãs que não se reconhecem, que não percebem que a união faz a força, de que não adianta brigarem entre si, pois isso só trará mais dor e sofrimento, desestabilidade política, um prato cheio para os “investidores” estrangeiros, que sugam nossas riquezas levando até o osso.

Quem é você, América Latina? Construída e destruída milhares de vezes, cada vez mais heterogênea, perdendo aos poucos sua identidade, sem se dar conta que o maior de todos os valores de um povo é a sua integridade. A diversidade cultural é uma benção, mas a falta de confraternização entre os povos é uma maldição.

Quem é você, América Latina? Do deserto de Nazca a Terra do Fogo, do mais colossal ao miserável, passando pelas vicissitudes do humano ao desumano, das armadilhas antigas e novas, das promessas de ontem e de hoje, do futuro incerto. Não pelo pressuposto de ninguém poder adivinhar o que virá, mas pelo simples fato de sua própria nação não poder participar das decisões tomadas para o seu destino.

Quem é você, América Latina? De uma corrida absurda para ocidentalizar-se, quando no mais estamos nos tornando cada vez mais uma África, nada quanto ao seu povo, muito pelo contrário, muito deles somos nós, mas sim quanto à loucura da instabilidade política e econômica. Talvez o que ainda nos diferencie é que o verdadeiro “Ocidente” precisa de nós como consumidores de seus produtos de muito entretenimento, mas de pouca valia para nossa realidade.

Quem é você, América Latina? Que me faz pensar quem sou eu, por que estou aqui, por que tem de ser assim. Que me faz sorrir de desgosto e chorar de alegria. Que me faz amar as diferenças e odiar as desigualdades.

Quem é você, América Latina? Por favor, me diga, quem é você?

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