Uma pergunta que tratei de esquecer

Sexta-feira, 25 de junho de 2010.

Intervalo do jogo entre Brasil e Portugal.

Não sei quanto a você, mas não suporto comerciais, ainda mais em jogo do Brasil na Copa do Mundo. Por isso, logo que o juiz apitou o fim do primeiro tempo, lá fui eu com meu controle mágico passear pelos não sei quantos canais que a TV a cabo oferece no seu pacote light.

Dois canais acima e invado um programa evangélico em que o pastor chama ao púlpito uma mulher que dá seu testemunho de como foi fiel no dízimo à igreja e por isso triplicou seus bens.

Cansado de ouvir uma explicação técnica de que tanto depositado na bolsa de valores de Deus gera tanto de juros no final do mês, acabei por subir mais três canais sem pestanejar. O avanço culminou num canal de notícias 24 horas. A reportagem tratava da tragédia das enchentes que está acontecendo nos Estados de Alagoas e Pernambuco, com dezenas de vítimas e milhares de desabrigados. Como num impulso de repúdio ao ver àquilo que estava acontecendo, eu balancei negativamente a cabeça e mudei de canal…

Para minha sorte o canal escolhido pelo controle mágico foi um programa católico em que o apresentador discursava sobre a importância de se adquirir uma medalhinha de santo Expedito, porque ele era o santo das causas impossíveis, ainda mais quando a medalha era abençoada pelo padre fulano de tal.

Como minha vida não precisava de nenhuma causa impossível, subi mais um canal e me deparei com as causas impossíveis sendo realizadas aos montes num culto ao vivo por um pastor que de tão bom que era curava as pessoas com o suor de seu rosto enxugado num lenço de pano.

Diante das imagens e situações difusas captadas pela retina dos meus olhos até aquele momento, minha mente deu um salto no escuro e foi buscar a pergunta que me persegue deste o tempo que me conheço por gente: Deus existe?

Devo confessar que sou cristão. Por isso a pergunta certa devesse ser: o Pai, o Filho e o Espírito Santo existem e, aliás, distintos mas indivisíveis?

Porque, se Deus existe mesmo, e Ele é como me ensinaram, suas características básicas são a onipotência, a onisciência e a onipresença. Desde criança tenho ouvido que Deus é o Todo Poderoso que sentado em seu Trono Celestial comanda o universo apenas num sinal de aprovação ou reprovação. Ele é o piloto da aeronave que nos leva ao Céu. Ele é o motorista do ônibus que dirige a Terra. Ele é o “inseticida” que vai expurgar de uma vez por todas o Diabo e suas pragas. Como diria nos dias de hoje, Ele é o cara!

Então, se Ele pode tudo, porque tudo no mundo parece estar fora do seu lugar?

E mesmo se Deus não quisesse se levantar do Trono para “arrumar a casa”, bastava Ele gerenciar seus domínios de forma econômica e eficaz para que tudo fosse resolvido. Será que Ele não aprendeu nada com seus sacerdotes que a todo instante dão aulas de como ser um excelente empreendedor?

Eu, na minha humilde opinião sobre como Deus deveria trabalhar no mundo, exigiria da mulher que triplicou seus bens que repartisse seus lucros com aqueles que perderam até mesmo o direito de dormir em uma cama com cobertores quentes que a enchente levou. Também obrigaria que toda a arrecadação das vendas das medalhinhas das causas impossíveis fossem revertidas em prol dos desabrigados pelas chuvas, além de advertir que todos os fieis/consumidores destinassem ao menos alguns segundos de suas orações pela causa. Por fim, mandaria o pastor milagreiro em seu jatinho particular lá para os locais afetados pela tragédia, e não me contentaria com ele com nada menos do que pessoas curadas e alimentos multiplicados.

Será que Deus não pensa em termos de gerenciamento? Aprendi noções de administração no curso de técnico em informática quando tinha apenas 15 anos de idade!

Ou será simplesmente que Deus não existe? Digo isso porque é inconcebível a ideia de um Deus que nada faz a favor dos injustiçados, pois se assim fosse ficaria difícil distingui-lo da criatura que o antagoniza.

Certa vez Robert De Niro disse que “se Deus existe, Ele tem muito que explicar”. Pensando bem, acho que o cara tem razão.

Se me pegasse num dia ruim, eu não aliviaria para Deus. Começaria perguntando onde Ele estava quando mais de 6 milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração? Por que Ele não evitou as duas Guerras Mundiais e tantos outros conflitos devastadores? Por que da escravidão? Por que do terremoto no Haiti? Por que ricos e pobres? Por que crianças são jogadas de cima dos prédios? Por que crianças são violentadas física, psicológica e sexualmente? O que o Senhor tem a dizer para a mãe aqui da rua de casa que perdeu seu filho de dez anos assassinado por dívidas de drogas? O que o Senhor tem a dizer à garota que perdeu seu irmão no auge de sua juventude por uma inconseqüência de outro jovem que dirigia uma motocicleta? Ou a moça que depois de anos de noivado recebeu a notícia de que o noivo não a ama mais? Onde o Senhor estava quando minha amiga foi assaltada? Por que não fez nada para salvar do câncer uma garota cheia de planos em se formar e ser professora de História? Por que um ex-marido tem a liberdade e impunidade de infernizar a vida da ex-mulher e filho? Onde o Senhor estava quando me sentia um nada por não ter emprego, terminado meu namoro, com sintomas de depressão, vontade de morrer?

A despeito de todos estes fatos e outros mais, onde Deus estava?

Todavia, sou também daqueles que acredita que toda boa pergunta sempre nos leva a boas respostas. E como todo cristão caretão, fui buscar nos porões de minha memória o que o Evangelho tinha a dizer sobre as (o)missões de Jesus. Confesso que estava com preguiça de abrir a Bíblia naquele momento.

Pensei primeiro em João Batista, afinal, foi ele quem anunciou a chegada do Filho do Homem. Com todo seu jeito estranho de viver no deserto com roupa feita de pêlos de camelo, um cinto de couro, comendo gafanhotos e mel do mato, talvez ele tivesse algo a me dizer sobre Deus.

O problema é que o que me lembrava de João dizia respeito apenas aos homens. Não consigo esquecer sua resposta quando a multidão o interpelou perguntando o que haviam de fazer para ganharem o coração de Deus. Ele fora taxativo: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”. E quando os cobradores de impostos fizeram a mesma pergunta? Sua resposta não foi menos amena: “Não cobreis mais do que o estipulado”. E para os soldados, ele tinha alguma palavra? Sim, para eles “A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo”.

Acabei por descartar João, era melhor mesmo tratar com o patrão no lugar dos empregados, pois os subordinados sempre têm a mania de querer dividir o trabalho que só competem a eles. Passei a me indagar o que Jesus tinha a dizer sobre Ele mesmo.

Pensando bem, Jesus não era muito dado a se auto intitular, aliás, quantas vezes repreendeu os homens e os demônios quando diziam que Ele era o Filho de Deus?! Quando fazia referência à sua Pessoa, chamava-se como Filho do Homem, gesto claro para demonstrar que estava ali não para ser servido, e sim para servir.

Por sinal, isso me lembrou que toda base de sustentação do cristianismo está simplesmente no esforço de imitar Cristo. Deve ser por isso que Jesus passou a maior parte do seu tempo aqui na Terra tentando ensinar aos homens como viver em comunhão com Deus.

O sábado não é o dia de descanso, assim como Deus descansou no sétimo dia após fazer o universo em seis? Aí vem Jesus respondendo com outras perguntas: “o que é que a nossa Lei diz sobre o sábado? O que é permitido fazer nesse dia: o bem ou o mal? Salvar alguém da morte ou deixar morrer?”. E assim Ele curou o homem em pleno sábado. A mensagem era clara: “O meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho”.

O difícil de acusar Jesus sobre sua indiferença aos pobres e injustiçados é que Ele não era indiferente a nada disso, pelo contrário, suas palavras e ações sempre se dirigiam aos doentes do corpo e da alma, lembrando que aqueles que tinham saúde não precisavam de médico. É por isso que “Felizes são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês”. É por isso que “Felizes são vocês que agora choram, pois vão rir”. E é por isso que “Felizes são vocês quando os odiarem, rejeitarem, insultarem e disserem que vocês são maus por serem seguidores do Filho do Homem”.

Além disso, imitar Jesus era e é sinônimo de “amem os seus inimigos e façam o bem para os que odeiam vocês”. Ou então “Desejem o bem para aqueles que os amaldiçoam e orem em favor daqueles que maltratam vocês”. E mais: “Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também. Se alguém tomar a sua capa, deixe que leve a túnica também. Dê sempre a qualquer um que lhe pedir alguma coisa; e, quando alguém tirar o que é seu, não peça de volta. Façam aos outros a mesma coisa que querem que eles façam a vocês”.

Para piorar a nossa situação, Jesus sempre fazia questão de lembrar que nós não somos inocentes em nada. Daí perguntas deste tipo: “Por que é que vocês mesmos não decidem qual é a maneira certa de agir?”. “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?”.

Tem também aquela frase que todo cristão se estremece de medo quando a lê: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”.

Nossa, está difícil encontrar algum argumento contra Deus. Da forma como Jesus estabeleceu suas relações com a humanidade, sobrou pouco ou nenhum espaço para acusá-lo de negligenciar as mazelas do mundo.

E por fim, ainda tem o Calvário… Agora me lembrei dele.

Na cruz, como Ed René Kivitz ressaltou, Jesus deixou claro que “Deus é declarado inocente porque se solidariza com as vítimas do mal e da malignidade. Através da morte de Jesus Cristo, seu Filho, Deus afirma ‘O mal também me feriu’, ‘O sofrimento chegou também à minha casa’, ‘As lágrimas pelo padecimento injusto também rolam dos meus olhos’, ‘Eu e as vítimas do mal e da malignidade somos um’. Verdadeiramente Deus levou sobre si nossas dores”.

O que me incomoda nas palavras do Evangelho ratificadas por Kivitz é que se Deus existe, e Ele não pode ser culpado por negligenciar os oprimidos, então de quem é a culpa?

Foi então que como se o Espírito Santo tivesse dado um “pedala Robinho” em mim, a resposta veio como um raio que fulmina uma árvore: a culpa é minha, que tenho duas túnicas e não reparto uma com ninguém. A culpa é minha, que não divido o alimento com o pensamento mesquinho de que amanhã pode me faltar. A culpa é minha, que sempre cobro mais do que o estipulado porque sigo o evangelho do capital. A culpa é minha, que maltrato e minto para os outros acreditando que isso significa proteger tudo aquilo que conquistei. A culpa é minha, que nunca me contento com o que tenho, e acabo por esquecer que muitos não têm nada. A culpa é minha, que não faço o bem porque é sábado, domingo, feriado, estou de férias, estou com dor de cabeça, estou com preguiça, acordei de TPM, nasceu uma espinha no meu rosto, aquela pessoa não merece o meu amor, não senti isso no coração, etc. A culpa é minha, que fico hesitando a vida toda para decidir a maneira certa de agir. A culpa é minha, que grito aos quatro cantos “Senhor, Senhor!”, mas não faço o que Ele diz.

A culpa é minha sim, porque se eu acreditasse nas palavras de Jesus de que “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”, eu nunca deixaria de recordar às próximas gerações o que foi feito com o povo judeu, e o que o Estado de Israel faz atualmente com o povo palestino. Eu nunca mais teria um ato de agressão em minha vida como prova de que as guerras são evitáveis. Eu lutaria contra o preconceito incubado em mim para não reviver em pequenas doses de crueldade o regime de escravidão. Eu mandaria mantimentos para o povo haitiano e também mandaria dezenas de e-mails para as grandes emissoras de televisão pressionando para que não deixem de televisionar o que está acontecendo por lá. Eu abriria mão de todas as riquezas deste mundo se isso significasse a pobreza dos meus irmãos. Preservaria a todo custo à integridade das crianças e da criança que vive dentro de mim, porque são dos pequeninos o Reino dos Céus. Eu abraçaria a mãe que perdeu o filho, e a garota que perdeu o irmão, pedindo perdão as duas por só agora ter estendido a minha mão. Aquilo que o ladrão levou de minha amiga, não seria nada daquilo que posso compartilhar com ela. Para a garota que perdeu o noivo, eu compartilharia com ela minha experiência de perder a namorada. Para a mulher e filho perseguidos pelo ex-marido, eu o faria perceber que os dois não estão mais sozinhos neste mundo. Nunca mais pensaria ou diria que ser professor de História é uma profissão indigna, porque uma garota daria tudo para hoje ter um diploma. E mesmo que continuasse desempregado, triste, solitário, não duvidaria que Deus existe e me ama, não pode haver condições para o amor verdadeiro.

Só que culpa não é só minha. A culpa também é da mulher do programa evangélico que triplica seus bens mas não triplica sua solidariedade. A culpa é das pessoas que vendem e compram medalhinhas das causas impossíveis e se esquecem de resolver as causas possíveis. A culpa é do pastor que só libera dons e curas quando dízimo e ofertas são liberados.

Para ser sincero, a culpa é inteiramente da humanidade e, mais especificamente, dos cristãos, que transformaram Jesus num sofisticado ramo de “pequenas empresas, grandes negócios”, estabelecendo o Diabo como “laranja” de nossas falcatruas e omissões.

Haja vista que Jesus morreu pregado no madeiro maldito para nos salvar dos pecados, mas também para apontar os verdadeiros promotores do mal. O véu do templo se rasgou, não há mais para onde se esconder. Na cruz Jesus deu o veredicto final de que Deus é inocente de toda esta palhaçada. E mais, instituiu que aquele que queira se reconciliar com Ele, que se arrependa de seus pecados, deflagrados muito mais em nossas omissões do que naquilo que fazemos. Como disse Paulo Brabo: “arrepender-se é mudar o mundo, pecar é omitir-se”.

E para os filantropos/mantenedores/dizimistas de plantão, pelas palavras de Jesus desconfio que Ele espera muito mais de nós do que caridade. Seus planos são bem mais audaciosos, nada menos do que justiça social e espiritual (na falta de um termo mais divino), para que Seus olhos contemplem novamente o exato instante que criou o mundo e disse que tudo “o que havia feito era bom”, inclusive os homens.

Da última vez que cristãos (eram doze, só para constar) imbuídos dos ensinamentos de Jesus viram um inocente crucificado pelo mal alheio, levantaram suas vozes com a convicção de que Deus não tinha nenhuma relação com a tragédia humana. Conscientes e arrependidos por suas faltas, arregaçaram as mangas para transformar o mundo que os cercava, certos de que Deus não impediu a mão que cravava o prego com o martelo da injustiça porque era o próprio Deus que recebia o golpe fatal, em compaixão a todos aqueles que experimentariam as maldades e iniquidades pela omissão daqueles que se perguntavam se Deus existia.

Por fim, entendi que a pergunta se Deus existe ou não me conforta, porque fico entre “acreditar” em Deus na esperança de que minha alma seja salva no fim de todos os tempos, e na “descrença” em sua Pessoa quando as coisas dão erradas neste tempo, pois crer e especialmente se relacionar com Jesus nos momentos mais cruciais do agora significaria primeiramente ter tentado evitar as tragédias que assolam a humanidade e, na consumação dos fatos, trazer para si a cruz do outro, liberando toda a compaixão existente para que Deus se revele em mim. Isso sim seria reviver o dia do Pentecostes.

Com a suspeita de que a resposta me foi dada, foi a pergunta que tratei de esquecer…

Usei pela última vez meu controle mágico, o jogo já ia recomeçar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: