A fonte da vida

O discípulo estava inquieto. Há meses recebendo os ensinamentos de seu Mestre, um grande Mago da Tradição do Sol, e ainda tinha a mesma sensação de quando começara: o sentimento de que algo muito importante ainda não fora explicado.

Olhou para o lado e viu seu Mestre tranqüilo, sentado na posição de Lótus, de olhos fechados, “comungando com o Universo”, como ele mesmo dizia.

A noite estava irradiante, o firmamento estrelado, o som dos grilos que pulavam de um lado para o outro na mata, a grama rasteira macia como um tapete de veludo, as árvores que balançavam calmamente com a brisa tocando seus galhos, suas folhas, como se estivessem colocando uma criança para ninar.

Tudo no Universo parecia estar no seu devido lugar, menos o discípulo.

– O que te aflige? – indagou o Mestre sem ao menos abrir os olhos.

– Mestre, não sei se serei capaz de explicar minha dúvida, mas parece que nada está imóvel, tudo isso a nossa volta se move, cada objeto, cada ser, a sua maneira, a sua velocidade, ainda assim, nada deixa de se mover.

– Sim, você está correto, viver é estar em constante movimento.

– Mas se isso é verdade, então a morte é o inverso de tudo, a imobilidade eterna?

O Mestre abriu os olhos, saiu da posição de Lótus, depois se levantou fazendo um sinal para que o discípulo fizesse o mesmo.

– A morte não é o fim. – disse o Mestre enquanto olhava por entre as árvores.

– Desculpe Mestre, mas não entendo. – de forma inconsciente o discípulo caminhava para a maior revelação de sua vida.

– A melhor forma para você descobrir se está defronte para um ensinamento universal, basta saber se esse ensinamento consta em diferentes culturas, credos, religiões. Cada qual da sua forma, usando as experiências deixadas por seus antepassados, mas, apesar das singularidades, a Alma do Universo se encarregou de preservar aquilo que é mais valioso para a compreensão da vida, a morte.

O Mestre passou a caminhar, o discípulo fez o mesmo, mais intrigado do que nunca pelo rumo que a conversa tomava.

– Os Maias, antiga civilização da América Central, diziam que tudo o que morre sobe até Shibauba e depois volta renovado. Por isso faziam sacrifícios em homenagem a Shibauba.

– Shibauba? – perguntou o discípulo.

– Sim, Shibauba era o nome que os Maias davam para uma nebulosa a qual cultuavam. A nebulosa é um tipo de estrela no período final de seu ciclo de vida, seu brilho é diferente das outras, quando morre, permite que outras estrelas surjam com os fraguimentos que um dia fora dela. De todos os astros existentes no Universo, é interessante perceber que os Maias escolheram uma estrela que estava morrendo para explicar o mito da Criação.

– Incrível. – disse o discípulo fascinado pela descoberta.

– Mas não foram apenas os Maias que descobriram a fonte da vida. No velho testamento da Bíblia, quando as pessoas queriam homenagear Javé, Deus, para que recebessem uma graça, elas faziam sacrifícios de animais nos templos sagrados. Os antigos Celtas também ofereciam oferendas de animais sacrificados aos deuses para que as colheitas fossem abundantes. No budismo a palavra “morte” significa “o que vai nascer”. No Alcorão, livro sagrado para o Islamismo, está escrito a seguinte frase em um de seus versículos: Do pó vos criamos, a ela retornareis, e dela vos faremos surgir outra vez. Jesus veio ao mundo para salvar a humanidade, e o que Ele fez? Sacrificou-se na cruz. O alimento morre em nossas bocas para que se transforme em fonte de vida a nossos corpos.

O discípulo ouvia tudo o que seu Mestre dizia absorto com suas palavras, mas ainda faltava algo para a sua compreensão plena.

Percebendo isso, o Mestre continuou:

– Os cientistas dizem que desde a Criação do Universo nada deixou de existir ou foi incluído algo de novo, tudo o que existia no começo continua existindo, apenas se transformou. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, foi o que dissera o francês Lavoisier.

“Perceba que cada uma das crenças que citei tem sua forma de explicar a vida e a morte, no entanto, todas concordam que para a vida possa existir, é necessário que aconteça a morte. Se tudo o que existe no Universo ainda continua sendo o mesmo, ou seja, energia, seja ela condensada como nós, ou dispersada como o vento que toca nossa pele, é impossível que uma nova vida surja sem que outra não se desfaça”.

O Mestre parecia absorto em seus pensamentos, seus olhos encheram-se de lágrimas.

– Pouco antes de morrer, meu antigo Mestre disse-me que eu não precisava ficar triste com sua partida, porque na verdade ele não partiria. A partir daquele momento ele se tornaria parte deste bosque. Sempre que o vento tocasse meus ouvidos, comesse uma fruta das árvores, sentasse sobre a relva, contemplasse o canto dos pássaros, sentisse a natureza envolta a mim, seria ele na extensão do seu Ser.

– Mas e a alma? Ela também se transforma assim como a matéria?

– Para que a vida esteja em movimento é necessário que haja uma centelha divina, um sopro de vida, e é isso que nós chamamos de alma. Nada continua intacto, apesar de não se fraguimentar, a alma modifica-se, aprende, compreende, se transforma.

– Então todos os seres têm uma alma?

– Mas é claro, ou você acha porque sabemos andar, falar, escrever, raciocinar, usar o cartão de crédito, nos dá o direito de sermos mais do que as outras criaturas? Bobagem, para a Alma do Universo só interessa a nossa capacidade de amar, compartilhar, comungar, e isso todos os seres dessa vastidão também sabem fazer. O beija-flor comunga com as flores, o sol comunga com as árvores, a semente comunga com a chuva, as rochas das costas comungam com as ondas do mar, os pés comungam com a estrada, em fim, a vida comunga com a morte para que continue a existir.

O discípulo sentiu uma energia estrondosa tomar conta de seu corpo, as palavras do Mestre tornaram-se uma sensação, a extraordinária sensação de que agora ele fazia parte do Todo, dos ciclos ininterruptos da vida, da transformação constante.

“A morte não é o fim, a morte é só o começo”.

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