Mundo espelho

O mundo é um espelho. Reflete nossas ações ou omissões. Contudo, como todo bom espelho, este reflexo sempre nos mostra uma imagem invertida da realidade, por isso as discrepâncias mais absurdas acabam acontecendo no nosso dia-a-dia.

Na imagem refletida pelo espelho,

a nossa democracia é representativa, acreditamos que ela é direta porque as eleições são diretas. A nossa democracia é muito semelhante à democracia ateniense, com seu povo cidadão participante das decisões do Estado, consciente de seus direitos e deveres, completamente inclusos na res publica, ou “coisa pública”. Por fim, somos chamados por nossa vontade patriótica às urnas, e cada um escolhe cuidadosamente os seus candidatos preferidos. E assim escolhemos os nossos representantes, delegamos o poder que cabe a nós para algumas pessoas cuidarem daquilo que é do povo. De repente, como num passe de mágica, os nossos representantes viram usurpadores, usam o que é do coletivo a favor de interesses pessoais, e quando descobertos, viram ladrões, culpados por todo o mal que existe no mundo. Pronto, a peça de teatro está completa e todos vivem felizes para sempre.

Já no mundo real, com o reflexo do espelho corrigido,

quase ninguém sabe a diferença entre democracia direta e democracia representativa; quase ninguém sabe o que é ser cidadão, no mais sempre confundido com eleitor. Conscientes da “coisa pública”? Muitas vezes não sabemos nem mesmo de qual partido o meu candidato pertence, o que dizer do resto? Existem pessoas que até acreditam que tudo o que é público é gratuito! Ainda bem que não trabalhamos mais de três meses por ano apenas para pagar os impostos. Culpamos de ladrões os homens que nós colocamos no poder, e insisto, NÓS. Isso sim que é estranho, porque escolhemos (lembre-se da democracia representativa) para administrar as riquezas produzidas pela nação pessoas que se tornam os nossos algozes? Sadomasoquismo? Pode ser, mas o mais provável é que no Brasil não exista cidadão e muito menos democracia, e sim pessoas que não gostam de política porque é um assunto muito sério e chato para se falar nas horas de lazer, e um Estado que existe apenas para suprir as suas próprias necessidades: interesses pessoais, desvios de verbas públicas, nepotismo, empreguismo, etc.

Enfim, não há cidadania, há mesmo é uma “estadania”.

Na imagem refletida pelo espelho,

a igualdade é um direito natural, todos os homens nascem iguais, independente de cor, credo ou sexo.

Barack Obama venceu as eleições nos Estados Unidos da América, ele salvará o mundo da crise financeira mundial em que nos enfiamos, acabou a Era Bush, não haverá mais guerras, os direitos civis serão respeitados, nenhum país poderá explorar o outro, todo o mundo viverá na mais perfeita democracia (direta ou representativa?) sob os auspícios dos Estados Unidos e seu novo líder.

Já no mundo real, com o reflexo do espelho corrigido,

os palestinos estão sendo massacrados pelos exércitos israelenses, privados de água, comida e energia, não podem ir e vir, não podem encontrar seus familiares por morarem num outro gueto, mortos às dezenas, talvez centenas de uma vez só, iguais apenas em uma coisa, todos são enterrados na mesma cova porque não há tempo para cavar outras sem que um míssel seja lançado em suas cabeças.

As nações do continente africano, isso mesmo, a África não é um país, estão constantemente recebendo ajuda de empresas farmacêuticas européias e norte-americanas na ajuda contra doenças graves. O não dito é que estes medicamentos estão em sua primeira fase de testes, que dizer, é muito mais barato testar esses medicamentos em seres humanos do que fazer todo o processo necessário até que se possa aplicá-los a “nossa” raça (ocidentais). Como disse um dos presidentes destas empresas: “não estamos matando ninguém que já não está morto”.

Atualmente Martin Luther King é confundido com Barack Obama, mesmo que Luther King tenha estudado às duras penas em Boston, enquanto Obama em Harvard; mesmo que Luther King lutara para a supressão da desigualdade baseada na cor e pela igualdade dos direitos civis, enquanto Obama luta para recuperar a supremacia dos Estados Unidos como principal potência imperialista mundial.

No Brasil, a riqueza do país está concentrada em menos de 5% da população total; mais da metade dos brasileiros vivem em favelas, ou “comunidades”, como queiram chamar, temos a taxa de juros mais alta do mundo, enquanto o país que vem em segundo tem sua taxa no valor da metade da nossa; vivemos de aluguel ou casas financiadas que só daqui a mais de vinte anos serão nossas, isso, é claro, se não deixarmos de pagar uma única parcela que consome 40% do nosso salário; falando em salário, o nosso não deveria ser chamado de mínimo, porque não dá nem para suprir as necessidades mínimas! As mulheres ganham menos do que os homens mesmo que realizem as mesmas funções; temos a maior parada gay do mundo, mas toda vez que os pais descobrem que seu filho é homossexual, o expulsam de casa; as pessoas todos os dias são mortas por balas perdidas que macabramente encontram um destino certeiro. Aqui o carro popular custa no mínimo R$ 15.000,00, o que para muitos custa uma vida inteira de trabalho. Falando em transporte, aqui o transporte público é pago duas vezes, a primeira com nossos impostos, e a segunda para as empresas privadas que ganharam a concessão para administrar os bens públicos. Eu realmente não entendo isso, o privado que cuida do público.

Em Taubaté, cidade integrante do Vale do Paraíba, enquanto os bairros adjacentes aos distritos industriais da cidade estão em estado de precariedade, com ruas esburacadas, casas sem muros de demarcação, não legalizadas, muitas vezes vivendo em verdadeiros barracos, as fábricas instaladas nos distritos industriais tem ruas primorosamente asfaltadas, nunca falta água ou luz, e ainda por cima receberam uma concessão de mais de trinta anos para não pagarem impostos, enquanto pagam um salário de R$ 350,00 para seus empregados que, aliás, são as mesmas pessoas que moram nos bairros pobres próximos. Talvez seja por isso que os bairros sejam pobres.

Nós reclamamos da educação pública ser uma merda, mas ninguém tem o trabalho de abrir o caderno do filho e saber o que ele está aprendendo; dizemos com todas as letras que é a educação o único meio para melhorar o nosso país, mas esquecemos que muitos diplomados universitários estão sobrevivendo com empregos como pedreiros e faxineiros. Poderíamos rever o nosso conceito de educação, educar apenas para ter um bom emprego (muito dinheiro), ou também para formar pessoas conscientes e ativas no mundo em que vivem?

Enfim, no mundo real a igualdade não é um direito natural, se assim o fosse não precisaria estar escrita em todas as constituições das nações que se dizem democráticas. A igualdade é uma busca, uma luta que deve acontecer todos os dias de nossas vidas, ela não vem feita, e sim construída, elaborada pelas ações dos homens que acreditam que o mundo pode ser mais igualitário, desde façamos por merecer.

Na imagem refletida pelo espelho,

o brasileiro é um povo solidário, receptivo, festeiro e pacífico. Além disso, a humanidade caminha a passos largos para o progresso, buscando sempre viver mais e melhor.

Já no mundo real, com o reflexo do espelho corrigido,

nós sempre preferimos caridade do que justiça social, sempre preferimos doar comida do que reivindicar ao governo que cumpra suas obrigações como promover condições para que aumente o número de empregos. Sentimos melhores por sabermos que existe a “bolsa família”, ou qualquer outro tipo de assistência social, porque realmente acreditamos que isso é o suficiente para viver e não sobreviver. Tratamos os nortistas e os nordestinos como a “vergonha” do Brasil, e deitamos no chão para que um europeu ou norte-americano passe por cima de nós se assim ele quiser. Somos capazes de nos sentirmos solidários com pessoas que nunca vimos na vida, mas somos incapazes de dar um bom dia para o varredor de rua que limpa nossa sujeira, quando não o entendemos como integrante da “paisagem” do nosso cotidiano, assim como um vaso ou uma árvore.

Vivemos em festa, de norte a sul, de leste a oeste, em todos os períodos do ano, enquanto a maior de todas as festas é feita secretamente todos os dias nas leis retrógradas aprovadas por nossos Congressos municipais, estaduais e federais. Além disso, somos chamados de pacíficos, mas o que dizer do Estado dentro do Estado comandado pelo crime organizado, mais organizado do que nossos partidos políticos? O que dizer da guerra diária no Rio de Janeiro entre traficantes e polícia, traficantes e milícia, polícia e milícia, polícia militar batendo em polícia civil? A coisa é tão confusa que quase não dá para compreender, o que sei é que as pessoas estão virando números que ninguém gostaria de contá-los.

Quando decidimos reivindicar, reclamar, protestar, quase sempre erramos os verdadeiros alvos: xingamos o motorista de ônibus pelo fato dos ônibus viverem empanturrados de gente como bois no curral, no lugar de questionar os donos da(s) empresa(s) porque não colocam mais ônibus para rodar nas ruas, ou a administração municipal em não fiscalizar corretamente a(s) empresa(s) para que se cumpra o que foi acordado no contrato. Reclamamos que o valor da conta de água e de luz está muito alto, mas sempre que um candidato a vereador vem a nossa casa pedir seu voto e perguntar o que precisa, pedimos cesta básica, ou aceitamos a compra do gás para o mês.

O que sinto é que o mundo moderno ou pós-moderno, tanto faz, está formando homens de três tipos: indecisos, indiferentes e interesseiros.

O indeciso é aquele que não consegue tomar nenhuma decisão que realmente vale à pena, ele sempre está adiando seus projetos, seus sonhos, deixando tudo o que pode ser feito hoje para amanhã e depois de amanhã se assim puder. É fraco, precisa sempre da ajuda dos outros para saber o que é melhor para a SUA vida, e como nunca sabe o que realmente quer, sempre vai pelo o que a televisão está dizendo, o que a moda está ditando, em fim, pelo o que a maioria está fazendo, mesmo que seja um absurdo completo. Por tanto hesitar, ele vê a vida passar todos os dias diante de seus olhos, sua paranóia é tão grande que ele deixa de acertar pelo medo de errar.

O tipo indiferente surgiu fortemente com a queda do Muro de Berlim, nasceu justamente quando as maiores utopias morreram. Ele é forte, mas apenas em não se sentir comovido por nada. Pessoas sofrem injustiças, morrem das formas mais brutais, vivem de forma mais brutal ainda, e ele continua ali, inerte, frio, imune a qualquer lágrima de dor, acreditando que não é com ele, vivendo sua vidinha medíocre, achando que ter uma casinha, um carrinho, um(a) namoradinho(a) está de bom tamanho (perceba que tudo sempre está no diminutivo). Ele é mesmo uma rocha costeira, só esquece que mesmo não sentindo dor as ondas do mar continuam batendo com força e a destruindo.

O tipo interesseiro para mim é o mais perigoso, enquanto o primeiro basta que a maioria esteja fazendo o certo que ele acaba também fazendo, e o segundo não faz nada para melhorar, mas também não atrapalha, o interesseiro é meticuloso e inescrupuloso, não mede esforços para alcançar seus objetivos, passa por cima de qualquer um, é uma cobra traiçoeira e venenosa. Ele é o puxa-saco do patrão (às vezes até do gerente, que também é um empregado, diga-se de passagem), capaz de trair sua classe apenas para ficar “bem visto” pelos superiores; aquele que consegue o gabarito para trapacear nos concursos que teoricamente estaria “concorrendo”; aquele que sempre está querendo se “dar bem” em qualquer tipo de negociação. O interesseiro também pode ser aquela empresa, sabe aquela, que arrecada dinheiro ou donativos de seus empregados para fazer caridade e elevar seu nome no mercado como uma instituição preocupada com os problemas sociais existentes na sociedade? Ele só pensa no humano quando isto trará algum tipo de lucro, seja capital econômico ou simbólico, acha que está num jogo de vídeo-game, precisa passar de fases, acumular bônus e matar todos os “inimigos” que estão pela frente. Mas o pior de tudo é que ele sempre tem um desculpa na manga para justificar suas ações: ora é porque se ele não fizer isso, outro vai fazer, ou porque o mundo é assim mesmo, não foi ele quem criou a fome e a desigualdade. Tem também aquela que se não fizer isso pode acabar ficando para “trás” (na minha concepção ele já está), ou então que é obrigado a fazer essas coisas porque tem família, cachorro, papagaio para sustentar, e não pode se dar ao luxo de percorrer o caminho mais longo para realizar seus sonhos, ou melhor, objetivos.

Como gostaria que fosse tão simples assim, descrever os três tipos de homens (pós)modernos, identificá-los e combatê-los a todo custo. Todavia, isso é bem didático para ser verdade, porque na concretude do real estes tipos por diversas vezes coexistem na mesma pessoa, já que como vimos eles praticamente não anulam um ao outro. E é aí que mora o perigo, invertendo o que diz o ditado, poderíamos dizer: “um é ruim, dois é péssimo, três é trágico”.

Eu tenho um sonho. Um sonho em que nossa sociedade forme outros três tipos de homens: os incomodados, os insatisfeitos e os íntegros.

O incomodado é aquele que sente que tem alguma coisa errada, algo fora do lugar, fora dos eixos. Não se sente a vontade durante algumas vezes do dia, mas ainda não sabe realmente o que é, ás vezes acha que foi alguma coisa que comeu, sente a pressão alterar-se, as mãos suarem frio, ficar inquieto, todos os sintomas de alguém que está prestes a explodir e, por fim, explode.

Assim, de incomodado ele passa a insatisfeito, percebe que os sintomas que estava sentindo não eram doenças do corpo, mas sim da alma, feridas sociais do tamanho de crateras, abertas, jorrando sangue que, estranhamente, quase ninguém percebe ou se interessa. Só que não há mais volta, o insatisfeito não consegue mais deixar para lá, tudo o que é desigual e injusto ele sente na própria pele, sente-se mal se não fizer alguma coisa para mudar determinadas situações, porque ele não aceita mais viver em um mundo de covardes. Agora ele vai até o fim, prefere milhões de vezes morrer tentando construir um mundo melhor, do que viver sabendo o quanto suas capacidades estão sendo jogadas no lixo.

É aí que nasce o homem íntegro, aquele que entende que faz parte do todo, inteiro, capaz de se ver nas mazelas do outro, nas duras penas daqueles que são excluídos do sistema. O íntegro não julga, arregaça as mangas para consertar os erros, seja dele ou dos outros. Ele não quer saber de poder se este poder não pode ser compartilhado, escapa das armadilhas do egoísmo, entende que individualidade não significa viver de forma mesquinha, que liberdade é mais agir do que gritar, é discutir menos e trabalhar mais por um mundo mais justo, que capitalismo, socialismo, comunismo ou anarquismo são mais do que palavras, são escolhas de como, por quem e por que viver.

Neste meu sonho, estes três tipos de homem se intercalam em um só, e por isto são capazes de combater os outros três tipos. Só que a luta não se dará em grandes campos de batalhas, com milhões de homens para cada lado. Fazendo jus ao prefixo “in” que está em todas as palavras empregadas (indeciso, indiferente, interesseiro, incomodado, insatisfeito e íntegro), a luta será interna, dentro de cada um, na esperança de que mais aspectos humanos prevaleçam sobre os desumanos.

O problema é que nossos sonhos já nascem mortos, devorados pelos “gurus” da sabedoria terrena e divina, aqueles que nos fazem acreditar que os sonhos pertencem a uma minoria e, se o resto desejarem realizar seus sonhos, deverão pagar por eles.

Assim os nossos sonhos são trocados por sonhos massificados: todo mundo quer ganhar um milhão de reais entrando no BBB1000, mesmo que seja preciso jogar, mentir, atuar; ganhar trinta e cinco milhões jogando na mega sena, acreditando mais na sorte do que em sua competência; ficar milionário como jogador de futebol sendo homem, ou uma supermodelo sendo mulher, mesmo que aquilo que ele gosta mesmo é cuidar de animais e ela fazer desenhos e pintar quadros, mas isto não dá dinheiro.

Ninguém mais quer se tornar professor, médico ou bombeiro, agora o sonho é ser especulador da bolsa de valores, posar nu para uma revista erótica masculina e/ou feminina, ou então “fazer qualquer coisa que me dê dinheiro”. Por mais absurdo que pareça, hoje nossos sonhos seguem a seguinte “lógica”: sonhar em ter muito dinheiro para poder realizar nossos sonhos, porque nossos sonhos são compráveis.

Mas aonde compramos nossos sonhos?

As propagandas de sonhos estão por toda parte, a televisão vende alegria para nossas vidas apáticas; a internet vende companhia para nossa solidão insuportável; a moda vende um estilo para você se sentir incluso, não sabe exatamente no que, mas o importante é estar incluso; os consultórios médicos vendem beleza artificial; as academias de ginástica vendem um tipo ideal, mesmo que a Juliana Paes seja morena e você loira, ou o Márcio Garcia seja branco e você negro; até mesmo as lojas de revelação fotográfica podem vender você a você com algumas modificações que você não gosta em você para você se ver. Essa eu nem vou comentar.

Pois é, o mundo é um espelho.

Só uma curiosidade: quando você olha para o espelho, que tipo de imagem é refletida?

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