O que você tem?

Já dizia John Donne*, “nenhum homem é uma ilha”, mesmo que às vezes, ou quase sempre, acreditamos que o nosso mundo é o resto do mundo, que nossa realidade é a realidade de todos, que podemos controlar os eventos os quais ocorrem a nossa volta e assim evitarmos o inevitável. Foi isso o que ocorreu com o executivo de uma multinacional. Ele era rico, possuía um apartamento em uma área nobre do Rio de Janeiro, carro do ano na garagem, cem mil reais por ano, todos os requisitos necessários para ser um homem feliz, e achava que realmente era.

Por mais que seja incômodo sempre nos deparamos com mundos completamente diferentes do nosso, para o executivo isso acontecia três vezes por semana durante quase uma hora. Para manter a forma, três vezes por semana ele corria no calçadão de Ipanema, era o momento o qual acontecia o embate das forças antagônicas, juntos estavam o belo e o feio, o rico e o pobre, aqueles que podem e aqueles que não podem, uma profusão de contrastes, e todos estavam no mesmo lugar. Caminhava lado a lado com a diferença, dava graças a Deus por existir a bela vista do mar, assim não precisaria ficar olhando para aquilo que no fundo lhe perturbava por demais.

O executivo era um homem bondoso, doava uma boa remessa de dinheiro para instituições de caridade, sua única exigência era não precisar visitar os locais, dizia ser uma pessoa muito ocupada, todavia não queria se lembrar que muitas pessoas no mundo sofriam por algo que em sua vida era banal, como ter dinheiro para comprar comida, ou poder pagar um plano médico. Não sentia e nem devia sentir-se culpado por isso, não fora ele quem criou a desigualdade no mundo, essa disparidade profunda entre as classes sociais, ganhou seu dinheiro de forma honesta, gostava de pensar que venceu na vida com suas próprias pernas.

Naquela manhã de segunda-feira ele fez o mesmo ritual de sempre antes de ir para praia, colocou seu shorts de corrida e uma camiseta regata, calçou seu tênis feito especialmente para o formato de seus pés e foi cuidar de sua saúde.

Menos de dez metros de seu prédio, e sua vida mudara para sempre.

Ele fora seqüestrado.

Infelizmente com a prosperidade de alguns surge a ganância de outros. O executivo pagou um preço alto por ter muito dinheiro, viveu dias intermináveis no cativeiro, perdido na escuridão do pequeno quartinho improvisado, nunca sabia se era dia ou era noite, muito menos se sairia vivo daquele lugar. Passou muita fome no começo, sentia-se enjoado só de ver a gororoba que os seqüestradores lhe serviam, com o tempo percebeu, ou era aquilo, ou era nada. Acima de tudo gostaria de viver para ver novamente sua mulher e suas filhas. Teve de dormir no chão duro, sentiu muito frio com o cobertor ralinho que lhe deram, chorou por diversas noites com saudades de sua cama, daria tudo para estar dormindo ao lado de sua mulher.

Arrancaram um pedaço de sua orelha como prova de vida, os policiais que estavam na frente do caso pediram uma prova que ele estivesse vivo, ninguém mais acreditava no que o coração dizia, bastava perguntar à sua mulher e o coração dela diria que sim.

O executivo deixou de pensar nas taxas de juros, na cotação do dólar, nos melhores investimentos, agora só conseguia pensar no sofrimento de sua mulher, na tristeza de suas filhas pela falta do pai, nas corridas no calçadão de Ipanema. Não conseguia entender porque não pagavam a droga do resgate aos seqüestradores, não era todo dia que o dinheiro podia salvar uma vida, para que então servia toda aquela fortuna que conseguira ao longo da vida?

Cansou de esperar que os outros fizessem algo por ele e decidiu tomar uma atitude por si, foi a primeira vez desde que fora seqüestrado que buscou ajuda dos céus, pediu a energia que move o mundo para lhe dar uma segunda chance, disse que todo ser humano merecia quantas chances fossem possíveis desde que sua vontade de mudança viesse do fundo do coração, porque ninguém sabe realmente qual a sua missão na Terra, então era preciso muitos recomeços para se encontrar aquele com final feliz. Não prometeu nada em troca, promessas traziam consigo uma carga de culpa se elas não pudessem ser cumpridas, apenas decidiu ouvir mais sua alma, fazer mais o que ela pedia, saciá-la antes que começasse a corroer-se.

No dia seguinte o cativeiro foi estourado pelos policiais, os seqüestradores foram presos e o executivo libertado. Ele estava irreconhecível, barba enorme, cabelos desgrenhados, há muito tempo sem tomar banho, perdera alguns quilos, rosto completamente abatido. Mas estava vivo, era o seu recomeço, a chance que pedira a força que conduz o universo.

O recomeço não foi nada fácil, depois de tanto tempo envolto as trevas era difícil acostumar-se com a luz novamente, exigia um grande esforço de superação e força para sair da inércia que se encontrava. O primeiro passo foi buscar ajuda psicológica, se não pudesse vencer seus medos, ao menos não deixar que eles lhe paralisassem.

Foi difícil, foi árduo, mas ele conseguiu. Entendeu que não conseguiria retomar a vida de antes, era preciso começar de forma diferente para terminar de forma diferente.

O executivo não mudou de país, não mudou de Estado, não mudou de cidade, não mudou de bairro, não mudou de rua, não mudou de prédio, não mudou de apartamento, não mudou de carro, não mudou de emprego, só mudou por dentro.

Continuou a doar remessas de dinheiro para instituições de caridade, a diferença era que ao menos uma vez por mês visitava os locais para que as doações que fazia fizessem sentido ao seu coração, até então ele doava seu dinheiro, mas esse dinheiro nunca vinha junto com seu amor.

Voltou a correr no calçadão de Ipanema, desta vez “vendo” a paisagem por inteira, os mendigos deitados nos bancos, as crianças pedindo dinheiro nos semáforos, a mulher pegando latinhas de alumínio das lixeiras para conseguir algum dinheiro para comer e o mar da praia de Ipanema ao fundo. Tudo isso vazia parte de seu mundo, aceitou que essa também era a sua realidade.

Aceitar para o executivo não significava deixar para lá, aceitar para ele significava buscar mudança, porque tudo aquilo fazia sua alma ficar inquieta, sua paz aparente antes do seqüestro tinha sumido por completo, ele deixou de ser uma ilha para se tornar um arquipélago.
Conversou com os mendigos sendo um ombro amigo, encaminhou as crianças do semáforo para centros educativos, comprou uma barraquinha de coco para a mulher que pegava latinhas, passou a ter mais tempo para a família e para os amigos, engajou-se em uma campanha para deixar as praias limpas, do mesmo modo que estava fazendo com sua vida.

Percebendo a mudança interior que seu marido passava, a mulher do executivo perguntou:

– O que você tem?

Ele poderia responder das mais diferentes formas, tinha tanto que não saberia nem por onde começar, foi o mais sincero possível:

– Eu não tenho nada querida, eu não tenho nada.

* John Donne, poeta inglês.

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