Revolução

Satã foi até minha casa e, diferente do que pensam, bateu na minha porta pedindo para entrar, eu deixei. Deixei que ele colocasse os pés no meu tapete, deixei que ele sentasse à mesa junto comigo, deixei que ele comesse da minha comida, precisava saber como pensava, acredito que para vencer o inimigo antes é necessário conhecê-lo. Fizemos uma trégua e, a partir daí, conversamos.

Ele me perguntou o que eu esperava para o mundo de amanhã, eu lhe respondi: uma revolução hoje.

Estranho minha resposta, nem eu mesmo a compreendi no momento, só depois, refletindo um pouco, que me dei conta do inside que tinha dito. Não sinto orgulho das palavras que saem da minha boca, pois sei que elas não são minhas, não fui eu quem as criei, fui apenas um mecanismo de algo que eu não sei explicar, nomear, delinear, seja lá o que o nosso cérebro precise fazer através de suas conexões cognitivas para compreender. Como dizia Sócrates: só sei que nada sei.

Mas voltando a conversa com Satã, ele disse que eu estava sendo utópico, até mesmo ele, um anjo caído, não havia conseguido fazer a revolução que pretendia, e olha que estava no mundo desde os seus primórdios!

Bom, ele tinha razão. Seria mesmo difícil fazer uma revolução nos moldes como aspirava, contei a ele que semana passada tentei fazer uma reunião com os moradores do bairro para que todos se mobilizassem contra violência a qual crescia vertiginosamente dia após dia na região, mas o que consegui reunir foi apenas alguns moradores aposentados e entediados os quais não tinham o que fazer no momento e decidiram ir até minha casa para passar o tempo. Além disso, a maioria dissera que o problema da violência não era nosso, era do governo.

Nesse momento Satã me interrompeu, disse que eu tinha razão, ele próprio estava perdendo credibilidade, antigamente a culpa era toda do Demônio, agora era governo pra lá, governo pra cá, tudo culpa do governo. Mas fazer o que, sinais dos novos tempos.

Acho que Satã gostou de conversar comigo, pois foi ele quem retomou o assunto da tal Revolução. Disse que até gostaria de uma nova revolução como fora a francesa, muita raiva, ódio, mortes, cabeças rolando, era tudo o que queria, entretanto, acreditava que dificilmente algo aconteceria da mesma forma. Agora os líderes mundiais, e não estava falando apenas dos governantes, eram muito mais sutis com a população do que no passado. Agora eles sugavam até o máximo e quando percebiam que a bomba iria estourar, faziam algumas concessões desde que ela não prejudicasse seus planos. A idéia era manter as aparências. Lembrou-se que ao contrário do que os líderes mundiais faziam, sua imagem sempre estava ligada a um monstro, a um bode velho de chifres grandes, em fim, qualquer coisa medonha.

Nessa hora ele ficou muito bravo, foi até engraçado, ele mesmo se chamando de besta. Não se conformava em não ser o dono dessa idéia brilhante: sem confrontos diretos, mais subliminares, contudo, não menos devastadores.

Eu disse a ele que também não queria uma revolução como fora a francesa. Primeiro porque através desse episódio que o Capitalismo se solidificou e segundo porque a revolução pretendida por mim era mais uma revolução interna do que externa.

Satã estava espirituoso, se é que pode-se dizer uma coisa dessas, brincou comigo dizendo que primeiro achou que eu tinha lido Marx para vir com essas idéias de revolução, mas agora achava mesmo que eu estava lendo Freude com esse papinho de revolução interna.

Expliquei a ele que não se tratava de psicanálise barata, auto-ajuda, ou coisas do gênero, revolução interna para mim significava tomada de consciência, como Carlos Castaneda expunha em seus livros. Já que como ele mesmo disse que os líderes “controlam” de uma forma ou de outra toda a população mundial, talvez a consciência de que estivessem sendo controlados fariam com que saíssem dessa letargia a qual suas vidas tinham se tornado.

Satã definitivamente tomou gosto pela conversa, talvez porque não tinha nada o que fazer como os velhinhos do meu bairro, mas o fato é que ele estava ajudando a direcionar minha vida em um rumo inesperado. Argumentou que o meu plano era lindo, maravilhoso, mas como eu pretendia fazer com que todos alcançassem essa tão esperada “tomada de consciência”? Como eu esperava fazer isso sem que as pessoas não pensassem que na verdade quem estava tentando controlá-las era eu em vez dos outros? E ainda complementou dizendo que pensar assim era pedir para fracassar.

Bom, mais uma vez Satã tinha razão. Um sonho que não tinha o mínimo de sustentação na realidade era quase impossível de se concretizar. Mas fazer o que agora? Pior do que não ter sonhos realizados era não ter sonhos. Precisava tomar cuidado. Apesar de ter feito uma trégua com Satã, não podia confiar totalmente nele, talvez estivesse utilizando os mesmo artifícios que os líderes mundiais, causar desesperança, impotência, assim era muito mais fácil de manipular.

Aliás, antes que me esquecesse, perguntei a ele porque Satã, não que achasse que o nome era feio, mas por pura curiosidade. Ele me respondeu que isso era invenção da Igreja, Satã derivava de Shaitan, que significava “Inimigo” em Hebraico.

Matada a curiosidade, eu disse a ele que precisava continuar acreditando em algo, precisava ter fé que o mundo melhoraria. Pela segunda vez ele ficou bravo, disse para eu não colocar a fé e nem Deus no meio, porque Ele já tinha feito muito em ter criado o Universo e principalmente a humanidade. Até o tal do livre arbítrio Ele tinha dado! Queriam mais o que da vida? Argumentou dizendo que ele, Satã, também fora criado por Ele, mas nem por isso ficava toda hora enchendo sua paciência para consertar as coisas que ele mesmo fazia, isso nem mesmo quando ainda era um anjo de luz.

É, Satã tinha razão de novo. Eu não podia ficar jogando para Deus os problemas que nós mesmos tínhamos criado. Só que não estava tão certo assim que todos os problemas do mundo foram o próprio homem que havia criado, por isso perguntei a ele qual era a sua percentagem na maldade existente.

Satã me respondeu que sua participação era bem menor do que imaginávamos, por exemplo, sempre o culpavam como causador direto da desigualdade mundial e por conseqüência da pobreza que desolava a Terra, no entanto, todo mundo esquecia que não fora ele que inventara o sistema capitalista, o qual pregava o acúmulo de riquezas nas mãos de poucos e por isso não sobrava muito para o restante do povo. Nem mesmo o dinheiro ele inventara! Foi obra nossa. Terminou dizendo que sua parcela de participação na maldade existente estava mais ligada na tentativa, e frisou bem, tentativa, de criar uma ambição irracional em certas pessoas, mas bastava que elas dissessem “não” e ele tinha de tirar seu cavalinho da chuva.

Realmente, Satã tinha razão. Era duro de aceitar, todavia parecia mesmo que a maior parte da desigualdade existente partia do real e não do sobrenatural. Fiquei até com pena dele, pois cheguei a pensar que ele ainda só era lembrado pela humanidade porque precisávamos colocar a culpa em alguém, assim poderíamos dormir com a consciência tranqüila.

Dessa vez fui eu que voltei a falar sobre revolução, depois de tudo o que Satã tinha dito e de tudo o que tinha pensado, cheguei à conclusão que a revolução como esperava nunca aconteceria. Talvez as pessoas não quisessem realmente mudar, talvez estivessem acostumadas demais com tudo o que acontecia e por isso não vislumbravam um futuro diferente com a Revolução de hoje. Aproveitei e desabafei, afinal de contas nem eu nem ele estávamos ganhando a guerra, disse que estava muito difícil continuar com essa história de mudar o mundo, eu fazia algo correto aqui, outro desfazia ali, um médico salvava uma vida, outras dez eram tiradas com a explosão de um carro bomba, alguém escrevia um livro ou produzia um filme na esperança de ajudar a mudar o mundo, e logo vinha a mídia transformando tudo em produto de massa, até aí passa, o pior era modificar seu sentido ideológico conforme suas conveniências.

Foi então que Satã me surpreendeu, achei que ele terminaria com minhas esperanças de Revolução, mas foi ele quem me ensinou o que deveria fazer. Disse-me quase que sussurrando: “Não seja bobo, faça como eu, agora estou utilizando a mesma tática que os líderes mundiais fazem, não demonstro mais minhas intenções reais, deixo as pessoas acreditarem que eu não existo mais, no entanto, continuo na ativa, sem confrontos, chega de batalhas entre o Bem e o Mal, agora fico com o lucro sem trabalho algum. Se você e as outras pessoas que pensam assim continuarem fazendo a Revolução, mas sem que as pessoas percebam diretamente, quando elas tomarem consciência, a Revolução interna já estará concretizada e aí não haverá volta. Lembre-se disso, o vento penetra muito mais rápido e eficiente dentro de uma muralha bem guarnecida do que um exército inteiro faria”.

Pois é, Satã tinha razão.

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