Mudo

Eu mudo na velocidade implacável dos dias.
Eu, mudo, atenho-me a ser espectador de minhas sinas.

Eu mudo na vertigem do passado, presente e futuro.
Eu, mudo, desacelero meus dias pensando no escuro.

Eu mudo as galáxias de perspectiva enquanto corro pelos campos.
Eu, mudo, contemplo as luzes que roubei dos pirilampos.

Eu mudo de crenças para salvar minha fé.
Eu, mudo, sinto Deus pelo aroma do café.

Eu mudo o jeito de pensar toda vez que leio um romance.
Eu, mudo, vivo os personagens anônimos lance a lance.

Eu mudo a escova de dentes tão gasta.
Eu, mudo, aceito qualquer sorriso de graça.

Eu mudo o penteado na medida em que me caem os cabelos.
Eu, mudo, olho minha vida refletida em espelhos.

Eu mudo as cortinas dos quartos para você reparar.
Eu, mudo, acato seu pedido para o raio de sol adentrar.

Eu mudo de lugar na cama tentando preencher seu espaço.
Eu, mudo, sonho com lençóis revirados e pernas que enlaço.

Eu mudo toda vez que sou despejado.
Eu, mudo, fico em mim para não ser exilado.

Eu mudo as canções de minha trilha sonora.
Eu, mudo, só não quero que o som vá embora.

Eu mudo as palavras de lugar só para não rimar.
Eu, mudo, escolho silêncio para me expressar.

Eu mudo.
Eu, mudo.

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