O Reino e sua subversão

Certo dia de tarde, Pedro e João estavam indo ao Templo para a oração das três horas.
Estava ali um homem que tinha nascido coxo. Todos os dias ele era levado para um dos portões do Templo, chamado “Portão Formoso”, a fim de pedir esmolas às pessoas que entravam no pátio do Templo.
Quando o coxo viu Pedro e João entrando, pediu uma esmola.
Eles olharam firmemente para ele, e Pedro disse: – Olhe para nós!
O homem olhou para eles, esperando receber alguma coisa.
Então Pedro disse: – Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho eu lhe dou: pelo poder do nome de Jesus Cristo, de Nazaré, levante-se e ande.
Em seguida Pedro pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar. No mesmo instante os pés e os tornozelos dele ficaram firmes.
Então ele deu um pulo, ficou de pé e começou a andar. Depois entrou no pátio do Templo com eles, andando, pulando e agradecendo a Deus.

Atos 3:1-8

Não culpo todo aquele que se deparar com este texto e acreditar tratar-se daquelas informações falsas plantadas na internet apenas pelo prazer em distorcer a realidade, mas é a mais pura verdade: ser cristão já foi sinônimo de ser subversivo.

Quem teve a curiosidade de passar os olhos pelo livro dos Atos dos Apóstolos escrito por Lucas ao menos sugere uma remota possibilidade do que estou afirmando. Isso porque os atos ali narrados trazem à tona uma concepção de mundo dos seguidores de Jesus excepcionalmente contestatória para a estrutura política, econômica e social da época.

Acredite se quiser, mas há cerca de dois mil anos atrás os cristãos freqüentavam espaços públicos de discussões políticas, como Paulo na Câmara Municipal de Atenas, e debatiam sobre a veracidade do status quo social com gregos, romanos, judeus, epicureus e até mesmo estóicos. Ali divulgavam os ensinamentos cristãos e incitavam as massas a seguirem Jesus e seu Reino radicalmente inclusivo, proclamando que nos domínios de seu Pai não havia e não há qualquer critério de distinção social e espiritual. E não bastando o atrevimento de enfrentar as lideranças religiosas e políticas com um discurso igualitário, conclamavam que para fazer parte da comunidade do Reino bastava arrepender-se de seus pecados (metanoia), ou seja, mudar de mentalidade e atitude a respeito de si e do mundo. E como sinalização desta nova ordem social e espiritual, os seguidores de Cristo repartiam seus bens, consertavam corpos, salvavam almas e se tratavam como iguais em tudo.

Imagine um cristão bradando na Ágora que o único Rei de todos os povos é Jesus e que o único reino capaz de trazer paz e prosperidade é o Reino de Deus, justamente para nações subjugadas pelo Império Romano? Se uma conduta como esta é radical para o nosso tempo, pense no que seria há cerca de dois mil anos atrás? Não é de se estranhar o tratamento que os cristãos recebiam na maioria das cidades que passavam. Perseguidos, expulsos, presos, açoitados, apedrejados, achincalhados e por fim assassinados, normalmente este era o fim daqueles que espalhavam a boa nova do Reino sem distinção, sem impostos, sem exploração e sem perseguições.

Todavia, apesar do fim trágico que se anunciava aos seus seguidores, o Reino não minorava sua capacidade de incluir novos “habitantes”, pois sua lógica não era reter, mas sim oferecer, inclusive a própria vida se assim fosse necessário – o grande ponto em comum com seu Desbravador. Em termos práticos, aqueles que permitiam que o Reino de Deus crescesse dentro de si tornavam-se eliminadores de distâncias e distinções. Daí a famosa frase de João Batista: “Arrependei-vos, pois o Reino de Deus está próximo”.

É por isso que a primeira medida dos habitantes do Reino, como podemos constatar em Atos na sua descrição do encontro de Pedro e João com um mendigo coxo na porta do templo, foi diluir num esforço distributivo radical as falsas distinções projetadas pela riqueza. Para eles, muito claramente o dinheiro não tinha como se interpor no caminho da sua missão. “Não tenho prata nem ouro”, eles professam – e é absolutamente afortunado que fosse assim, porque o dinheiro é a coisa mais barata que se pode dar a qualquer um.

Se fosse diferente – se Pedro e João de fato tivessem prata e ouro para consolar a sua consciência e a necessidade do homem na porta do templo, nenhuma distância estaria sendo eliminada. Ao contrário, o espaço imaginário que os distinguia/separava daquele homem só teria sido acentuado, como acontece conosco quando pensamos que há verdadeira generosidade em estender uma moeda a quem quer que seja quando podemos oferecer o resgate da integridade e da dignidade.

Os habitantes do Reino, no entanto, estão inteiramente preparados a ter nada a perder, de modo a terem constantemente tudo a oferecer. Quando estenderam a mão ao homem necessitado, Pedro e João estavam sem exagero dando tudo que tinham e que eram. De fato, “o que tenho lhe dou”, como Pedro pronunciou, é a caracterização plena do acolhimento sem distinção, pois ofereceu o seu melhor. E assim curaram o homem com o poder que lhes foi dado por Jesus apenas para confirmarem o juízo de Deus de que sob seus domínios todos os dons, virtudes e potestades estão a serviço do próximo e não sob o interesse do ego. Completa aceitação, completa fraternidade, completo equilíbrio de recursos e de forças. A comunhão de que desfrutam entre si, dois homens estendem sem reservas a um terceiro. Tomam-lhe pela mão e com isso lhe dizem: “você não é um homem que vive de esmolas; a distância que os outros estabeleceram para proteger-se da sua condição é uma farsa. Você é um ser humano; você é um de nós”.

Por esse e tantos atos, dia após dia os habitantes do Reino provavam que, uma vez que deixamos de fazer a distinção, ela simplesmente deixa de existir. A graça da inclusão se comunica sem critério de uma pessoa a outra, e onde todos estão cheios do Reino não há distância ou distinção que não possa ser eliminada.

A igreja ou templo, diferente do modelo que hoje vigora, não era o “domínio de Deus” na Terra, mas sim um verdadeiro cenáculo, ou seja, um local de encontro daqueles que professavam a crença de um estilo de vida capaz de subverter toda a lógica hierárquica que a sociedade impunha. Pois o Reino crescia de dentro para fora, em cada um: “nele vivemos, nos movemos e existimos”, como diria Paulo. Sem qualquer critério de escolha ou merecimento, a ponto de estar ao alcance de todos, o que colocava sob julgamento toda e qualquer diferenciação estipulada pelas estruturas sociais como ontológico-naturais (sempre existiu).

Mesmo nos momentos em que estes ensinamentos não eram expostos sistematicamente, seu poder maior estava na própria vivência dos mesmos, que se espalhavam como um vírus, derrubando fronteiras geográficas e sociais.

Outro fator que distingue exponencialmente a igreja de “ontem” e a de “hoje” está justamente no cuidado que os cristãos tinham de não transformar experiências com Deus em dogmas. Enquanto cenáculo, os habitantes do Reino se reuniam para orar, travar debates de cunho teológico, testemunhar suas experiências de vida mediada pelo Espírito Santo e também, pasmem, expor suas dúvidas e conflitos.

É por isso que encontramos em Atos situações como Paulo se desentendendo com Barnabé por conta de levar ou não João Marcos (o mesmo que escreveu o evangelho) para uma missão, ou então a reunião realizada em Jerusalém para decidirem se os não-judeus precisavam ou não realizar a circuncisão como garantia de aliança com Deus.

Aqueles homens e mulheres estavam vivenciando a incrível experiência de caminharem sob a responsabilidade da graça e não sob o peso da Lei. Por isso não havia “certezas” e “verdades” em que pudessem esconder suas falhas de caráter, como normalmente fariseus e saduceus faziam e “homens de Deus” fazem, mas sim condutas que se espelhavam na imagem de Jesus. E na medida em que a realidade erigia seus obstáculos e complexidades que eles desconheciam, eram humildes o suficiente para se reunirem e decidirem conjuntamente qual o melhor caminho a ser seguido, sempre mediados pelo Espírito Santo, um verdadeiro Auxiliador, como Jesus prometera que viria.

Trazendo a questão para os dias de hoje, alguns poderiam pensar que os habitantes do Reino são muitos então, espalhados pelas igrejas cristãs, em suas diferentes denominações, mas como um só corpo louvando Jesus como seu único salvador.

Tudo bem, em tese até poderia ser, mas creio que a realidade seja um pouco mais complexa do que um simples raciocínio frequentar igreja + Jesus meu salvador = habitante do Reino. Isso porque entre os primeiros cristãos e nós está um grande muro chamado cristianismo.

O cristianismo não é obra de Cristo, o cristianismo é obra do imperador romano Constantino I.

Com o objetivo de pacificar o império romano marcado por lutas religiosas, em 325 d.C. Constantino organizou um concílio na cidade de Nicéia, convocando todos os bispos das principais províncias do império, e ali foram canonizadas (oficializadas) todas as “verdades” referentes a Cristo e seu culto, inclusive quais escritos apostólicos deveriam ser considerados como inspiração divina. De fato, a Bíblia Sagrada é uma realidade tardia ao próprio movimento cristão que nasce efetivamente no Pentecostes. Havia no movimento cristão chamado primitivo um conjunto de escritos apostólicos, mas não eram considerados textos canônicos autoritativos como o são pela cristandade contemporânea. O Cânon bíblico é formado no quarto século da era cristã, de modo que já existiam habitantes do Reino antes que houvesse o que hoje chamamos de Bíblia e de cristianismo.

A institucionalização da crença em Jesus causou um efeito contrário do que se poderia imaginar, porque os detentores do poder imediatamente associaram suas imagens à legitimação de serem os detentores das chaves que abrem os portões do Reino, construindo uma estrutura hierárquica tão sufocante quanto às encontradas em outras dimensões sociais. Era o restabelecimento das distâncias e distinções.

Agora os opositores do Reino não visavam se distinguir ou se dissociar dos planos de Deus, mas sim distorcê-los aos nossos olhos a ponto de enganar muitos famintos pelo Pão da Vida, camuflados como verdadeiros lobos em pele de cordeiros. Não é de se estranhar os alertas de Jesus aos discípulos: “Cuidado com os falsos profetas! Eles chegam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos selvagens”.

Mesmo a Reforma levado a cabo por Lutero não conseguiu pôr abaixo os muros da distinção. Se foram abolidos vícios corruptivos escancarados pela Igreja Católica, criaram-se outros tantos apenas em oposição ao culto católico, ainda com o discurso de volta às Escrituras. Além disso, para tornar realizável seu desejo de Reforma, Lutero buscou apoio da aristocracia alemã que ansiava por usurpar as terras da Igreja na região germânica, desejosos também em extinguir os impostos cobrados pela estrutura do Sacro Império Romano Germânico que na prática ia para os cofres papais. De forma semelhante ocorreu com Calvino, sem mencionar Henrique VIII, que além de rei da Inglaterra, tornou-se líder supremo da Igreja Anglicana.

Quando se desconsidera ou desconhece o processo histórico da formação e manutenção do cristianismo, é fácil acreditar que seguir a cartilha das instituições cristãs garante a carteirinha de membro do clube de Jesus, mas antes seria necessário fazer uma profunda reflexão da prática incutida nestas organizações, em suma, saber que tipo de cristão elas estão formando: subversivos da ordem exploratória e desigual, ou conformados em suas zonas de conforto com a ideia derrotista de “cada um por si e Deus por todos”?

Infelizmente, o que mais se vislumbra no horizonte são igrejas organizadas em dois grandes blocos: aquelas que mais se assemelham a bancos e bolsas de valores, utilizando-se covardemente do desespero alheio na busca por Deus para acumular e especular capital em prol de alguns; e aquelas que adotaram a estratégia de “fuga do mundo”, exigindo de seus membros que vivam como estrangeiros, destacados antes da hora, que cortem relações com qualquer vivência extra-igreja, que usem toda sua energia nos trabalhos da e para a igreja, e que por fim ainda tenham a capacidade de angariar mais membros para o campo de refugiados.

Recentemente o cientista Stephen Hawking afirmou que em poucas décadas entraremos em contato com vida alienígena, mas será que ele nunca adentrou uma igreja escatológica?

Todavia, gostaria de deixar claro que não sou contra a qualquer vivência institucional religiosa, desde que isso não prejudique sua experiência espiritual. Cada um sabe os vícios que tem e precisa se libertar, inclusive das “costas largas” que a igreja pode oferecer. Além disso, existem sim casos em que a instituição se esforça grandemente para ser cenáculo.

Bom, mas e os habitantes do Reino, onde estão afinal? Onde estão os subversivos que travam debates públicos em nome da ética e do bem, que se levantam contra as injustiças, que acolhem integralmente os injustiçados, e que são o instrumento de Deus na Terra?

Eu diria que estão espalhados por aí, feitos trigo no meio do joio, esforçando-se a todo instante para eliminar diferenças e proclamar a Pessoa de Jesus como padrão de vida plena e abundante; o Emanuel, o Deus conosco.

A história não nos revela apenas o nascimento do cristianismo e suas consequências, mas também a continuidade do Reino de Deus por meio de gente sem muito a acrescentar ao mundo a não ser minorar as diferenças. Gandhi foi um desses, Luther King foi um desses, Nelson Mandela é um desses, mas de modo geral gigantes desse porte não deixam herança porque rapidamente são transformados em heróis míticos e utópicos para nossa prática cotidiana, e essa sua infertilidade representa a falsa tranquilidade do mundo e nossa paz. Nesse sentido, a singularidade do Filho do Homem e sua espada residem em ter colocado em movimento um Reino vivo e sem fronteiras, habitado por gente comum, que cresce de dentro para fora, definido precisamente pela disciplina da inclusão. Quando não resistimos ao avanço sem impedimentos desse movimento, ele sempre representa a ruína do mundo como o conhecemos, porque a disciplina da inclusão está fundamentada no completo abandono daquilo que o mundo toma por absolutamente fundamental: nossas distinções, e com elas as distâncias reais e imaginárias que representam.

Então é melhor estarmos atentos às palavras de Jesus, pois “Quando o Reino de Deus chegar, não será uma coisa que se possa ver. Ninguém vai dizer: ‘Vejam! Está aqui’ ou ‘Está ali’. Porque o Reino de Deus está dentro de vocês”.

Graças a Deus.

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