Seu Silva, o anarquista

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para escondê-la”.

V de Vingança.

Baseado numa história inverídia contado por um mentiroso que não consegue conviver com a verdade imposta pela realidade:

Brasília. Praça dos Três Poderes. Prédio do Senado Federal. Salão de sessões.

O anfiteatro está quase pronto para receber o maior espetáculo da Terra. As cadeiras estão vazias, não há ninguém se não o faxineiro, seu Silva, que molha freneticamente seu esfregão no balde de água para limpar o palco. É preciso que tudo esteja perfeitamente limpo, pois depois podem dizer que a sujeira que aparece na televisão é culpa sua.

Silêncio. Eis a medida exata da verdade.

Os microfones em pedestal são símbolos de magnitude. Uns mais acima, outros mais abaixo, posicionados conforme a estatura e o tamanho do ego de cada um.

Nas bancadas, cada qual com seu nome. Sozinhos, são apenas “jagunços”, “coronéis”, “vossa excelência”, etc. Juntos, são imbatíveis.

Seu Silva escuta passos. Assustado, levanta a cabeça na espera dos homens de preto entrando com sorrisos insossos. Calma, é só seu companheiro de jornada, o vigilante Tião. Ele veio realizar o serviço mais nobre da sessão: desenhar com giz a bandeira nacional no tapete bem aos pés da grande tribuna, o altar dos homens do poder, em que demagogias e musiquetas são expressas no rastro de acalmar os ânimos exaltados.

As mãos firmes de Tião reforçavam caprichosamente o contorno da bandeira quase apagado. Naquele dia sua vontade foi também escrever “ordem e progresso”. Uma vez viu no livro de História que estes dizeres eram coisa de ditadura, mas precisavam ver de perto como era aquilo ali quando estava cheio, talvez mudassem de ideia.

Que estranho. Por um momento Tião percebeu que a bandeira estava bem aos pés daqueles que falavam pelos cotovelos sobre a tribuna. Refletiu que seu serviço não era tão nobre assim…

E seu Silva perguntou para Tião:

– O que vai ter pra hoje?

E Tião respondeu para seu Silva:

– Hoje é sobre educação. Tomara que dessa vez a coisa vá. Para mim não adianta muito, meu filho já está se formando, e tive de pagar todos seus estudos.

Seu silva abaixou a cabeça e continuou esfregando. Dessa vez com mais força, tudo para que aquele lugar reluzisse. Tinha um neto de apenas oito anos.

Pronto. A bandeira está feita. Sem as cores de costume, mas neste lugar a cor cinza do tapete parece que lhe cai bem.

– Já terminou seu Silva? Está quase na hora de começar – disse Tião olhando para seu relógio.

Seu Silva desistiu de esfregar, chegou à conclusão que não havia a menor possibilidade daquilo ficar 100% limpo. Pegou seu balde e esfregão e desceu ao encontro do colega de trabalho.

Por um instante os dois contemplaram aquela imensidão. Estáticos, olhares esperançosos com o futuro e pesarosos com o presente.

– O que fazer seu Silva? – a pergunta de Tião foi tão repentina e profunda que seu amigo se sentiu o responsável por tudo aquilo.

Antes que seu Silva pudesse dizer alguma coisa, seu amigo tinha lhe dado as costas enquanto desaparecia por uma das portas laterais do imenso salão.

Mas algo mudou naquele momento.

Os batimentos cardíacos de seu Silva subiram rapidamente. Suas mãos suavam frio. Seu rosto queimava como uma brasa. O corpo todo parecia desejar sair daquele estado de letargia, inércia. Por um momento achou que estava tendo um enfarto, mas logo percebeu que era indignação.

Foi então que ele levou sua mão ao bolso esquerdo e tirou um pequeno papel dobrado de forma desajeitada. Há anos sonhava com aquilo, há anos trabalhava no Congresso, mais alguns anos e estaria aposentado. As oportunidades estavam diminuindo a cada momento. Era agora ou nunca.

– Pra merda essa tal de Repúbrica!

Apertado pela força da mão esquerda fechada, o papel e seu Silva seguiram em direção à tribuna. Passos rápidos e firmes.

E lá estava o faxineiro, desdobrando rapidamente a pequena folha envelhecida e encharcada pelo suor de sua mão.

“Larga de ser cagão homem!”. Era só isso que ecoava na mente de seu Silva. Deu duas batidinhas no microfone e ouviu o som da microfonia tomar conta do salão.

Era o momento.

Lembrava-se como se fosse hoje quando ouviu seu filho recitar aqueles versos para ele. Achou-os triste, porém belos e verdadeiros.

“Foi ocê quem escreveu isso?”, perguntou ao filho com olhos lacrimejados. “Não pai, foi Shakespeare. É um trecho de sua peça chamada Macbeth”.

E depois disso nunca mais os esqueceu. Leu, releu, decorou, mas nunca recitou em público. A vergonha era tanta que o inibiu até aquele momento.

Foi então que seu Silva, o faxineiro do salão de sessões do Senado, assim recitou seus versos prediletos para o plenário vazio:

“Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
os mais inúteis com riqueza e sorte
e a fé mais pura triste ao ser traída
honras a quem vale nada
a virtude prostituída
a perfeição caluniada
a força, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sábio, decidindo
Farto de tudo, penso: parto sem dor.
Mas, ao partir, deixo só o meu amor”.

E depois o silêncio.

Embargado pela emoção, seu Silva desceu as escadas e tomou rumo pela saída principal. Tempo suficiente para que os senadores fossem chegando por várias entradas como formigas que encontraram um pote de açúcar com a tampa aberta.

Não tá certo. O povo não deve ter medo dos político, mas os político que deve ter medo do povo.

Mas seu Silva deixou de lado seus pensamentos, era hora de descansar. Amanhã seu amigo Tião desenharia mais uma vez a bandeira nacional, enquanto o escutaria cantar aquela música com o trecho bonito: “Deitado eternamente em berço esplêndido…“.

Antes de sair, seu Silva ouviu o grito patético de “Ordem na sessão!”, o que desfez completamente o silêncio da verdade.

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