Minha convicção

Minha convicção – minha totalmente equivocada convicção – era que manter-me genérico me manteria mais perto das pessoas. Eu tinha medo da definição, porque estava certo de que escolher ser escritor era escolher afastar-me para sempre de todos os esportistas; ser professor era condenar tacitamente todos os alpinistas, e assim por diante.

Como os outros eram minha prioridade, meu projeto era manter-me o mais indefinido possível, indiferenciado como uma célula-tronco – a fim de ser poupado de, pela maldição da escolha, ganhar a reprovação ou a indiferença de todos que não tivessem escolhido caminho semelhante.

A meu modo eu também intuía que há algo de terrível na autodeterminação. Se a indenização fosse afastar-me das pessoas, a autonomia era uma arma que eu não queria usar. Ao contrário de Deus, eu não estava disposto a pagar o preço de ser o Outro, pelo que investi todos os esforços em manter-me Qualquer Um.

O que acabei descobrindo é que minha indiferenciação não produzia generalizada aceitação e júbilo, mas universais confusão e horror. As pessoas simplesmente não conhecem outro caminho que não seja guiado, como no prólogo de Alice, por rótulos sensatamente fixados às coisas. É menos embaraçoso lidar com o outro, que pode ser rotulado e portanto medido, do que abraçar na total escuridão o desconhecido que pode ser qualquer um.

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