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Uma criança

Um herói que é um astro, um cordeiro, um rei, um sol e uma criança – criança impronunciável, virginal, invisível, onipresente, silente, frágil, belíssima e tremenda; criança que qualquer um pode vislumbrar e cujo perfume exala em todo lugar; a vertiginosa criança da Árvore da Vida, cujas mãos curam as nações e cuja imagem apenas nos sonhos nos é dado contemplar; a criança que tem o poder de converter todas as espadas e cuja preciosíssima essência é destilada, gota a gota, por cada ato isolado de generosidade e de coragem; a criança imensa, imaculada e onipotente cujo sorriso simétrico são todas as lágrimas que já derramaram em todas as épocas todos os homens – inclusive as lágrimas daquele cujo Coração corresponde, incrivelmente, circularmente, à própria Criança.

E vejo-me de joelhos diante de uma criança que nunca vi e de seu perfume, absolutamente convicto de que não será a última vez. Ela é bela e infinita, e cada oração que faço pelos outros ela exige que seja eu mesmo a responder; cada oração que faço por mim mesmo ela responde com um um sorriso, um silêncio e – no tremendo braço estendido, que poderia com absolutamente qualquer outro gesto me derrubar – uma mesma criança a me ninar.

Uma criança chamada Jesus. Está tudo preparado para seu (re)nascimento, os corações estão prontos.


Quem ama sangra

Ele olhou ao redor da montanha e previu uma cena.
Três corpos pendurados em três cruzes. Braços estendidos.
Cabeças inclinadas para frente.

Eles gemiam por causa do vento.
Homens fardados estavam sentados no chão, perto dos três.
Homens com roupas de religiosos se afastaram para o lado… arrogantes, convencidos.
Mulheres envolvidas em sofrimento estão reunidas ao pé da montanha… rostos marcados pelas lágrimas.
Todo o céu se levantou para lutar.
Toda a natureza se ergueu para o resgate.
Toda eternidade posicionou-se para dar proteção.
Mas o Criador não deu ordem alguma.
“Isso deve ser feito…”, disse, e retirou-se.
O anjo disse outra vez: “Seria menos doloroso se…”
O Criador o interrompeu brandamente: “Mas não seria amor…”

Salvos da perfeição

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


Com quantos cristãos se faz o capitalismo?

A fim de manter a sua supremacia por um período significativo de tempo, um sistema religioso precisa sustentar valores e ideias que parecem evidentes por si mesmos à maior parte dos membros de uma sociedade. As principais ideias de um sistema religioso têm de ser naturalmente transferíveis às novas gerações, sem que precisem ser ensinadas diretamente; os desvios da norma, os hereges, devem por sua vez ficar evidentes e ser excluídos por um mecanismo instintivo de rejeição logo que se manifestam.

Há pelo menos três séculos o cristianismo como sistema religioso formal da civilização ocidental foi substituído pela crença universal no capitalismo. O capitalismo (leia-se, e em inglês, way of life) provou-se por todos os critérios o sistema de crenças mais bem sucedido da história.

Isso porque, como qualquer muçulmano pode facilmente apontar, o capitalismo é uma religião como qualquer outra – apenas mais enraizada e muito mais difícil de converter. Embora a história do sucesso do cristianismo e do capitalismo ocidental andem até certo ponto de mãos dadas, os sistemas de segurança e multiplicação do capitalismo como sistema de fé são infinitamente mais estanques e bem amarrados do que os do cristianismo jamais foram.

Alguns valores subjacentes ao cristianismo (como, digamos, a ênfase na humildade e no sacrifício pessoal) nunca tiveram apelo diante do cidadão comum como as seduções embutidas no capitalismo.

Os mecanismos de defesa e autopropagação das duas religiões, no entanto, são muitos semelhantes e denunciam uma origem comum. Durante o período de supremacia do cristianismo institucional qualquer cidadão que ousasse propor uma alternativa ao cristianismo ortodoxo era imediatamente taxado, condenado e convenientemente eliminado da discussão como herege; nos dias de hoje, qualquer cidadão que ouse propor uma alternativa ao capitalismo ortodoxo (como fazem, por exemplo, os proponentes do software livre e os que advogam leis menos restritivas de copyright) é imediatamente taxado, condenado e convenientemente eliminado da discussão como comunista.

Já foi dito e comprovado que em outro tempo as esperanças instiladas pelo cristianismo permitiram que ele servisse como instrumento de dominação e controle por parte das classes superiores. O homem comum que acreditava na felicidade numa vida futura não precisava revoltar-se contra as injustiças desta vida. Enquanto o cristianismo era a religião das multidões, diz esse raciocínio, as multidões eram fáceis de controlar e de apaziguar: diante de qualquer insatisfação com uma injustiça presente, bastava acenar com a garantia da justiça eterna.

A verdade é que, com esperanças ainda mais artificiais (e garantias pelo menos tão irreais), o capitalismo alcançou sucesso ainda maior como religião. A diferença de ênfase do capitalismo é na verdade sutil, mas como sistema de domínio da população sua eficácia é infinitamente maior. O homem comum dos dias de hoje não precisa revoltar-se contra as injustiças desta vida porque ele acredita que o sistema é livre e eficiente, e nada impede que ele ascenda na escala social e econômica ainda nesta vida. Esta promessa de mobilidade social, com que lhe acena a sociedade “livre”, é a sua fé inviolável. Não importa quão poucos sejam os que de fato ascendem socialmente como resultado da livre iniciativa (talvez um ainda menor número dos que iam para o céu), mas para a permanência dos sistema basta que a ilusão persista.

As multidões hoje em dia são fáceis de controlar e de apaziguar porque, diante de qualquer insatisfação com uma injustiça presente, basta acenar com a liberdade e a justiça inerentes ao sistema: “se você não chegou ate onde eu cheguei”, dizem em silêncio as classes dominantes, “é porque não tem a mesma garra e a mesma competência que eu. Você poderia ter se esforçado mais, e na verdade ainda pode: a culpa pelo seu fracasso é sua e somente sua”.

Segundo o cristianismo, o mundo é justo porque qualquer pessoa, desde que realmente queira, pode alcançar o paraíso na eternidade. Segundo o capitalismo, o mundo é justo porque qualquer pessoa, desde que realmente queira, pode ficar rica. Acenando com promessas diferentes, os dois sistemas produzem resultado semelhante e que tende a manter o estado de coisas. No final das contas, quem crê nas promessas do capitalismo é pelo menos tão manipulável e conformado com a sua sorte quanto o mais devoto cristão.

O menor sucesso do capitalismo não foi ter apagado do próprio cristianismo qualquer traço de originalidade. Não importa que o Novo Testamento defenda, de uma a outra capa, a humildade, o altruísmo e o comedimento; não importa o “bem-aventurados os pobres” e o “ai dos ricos” de Jesus. O alvo de qualquer cristão ocidental contemporâneo está sincronizado com o capitalismo, não com a ousada mensagem de contracultura que permeia o Novo Testamento.

Para verificar o sucesso definitivo do capitalismo como sistema de crenças basta ver que até mesmo as seitas cristãs alteraram as suas ênfases ideológicas a partir do sucesso irresistível do seu antagonista. Hoje em dia nenhum sistema religioso cristão bem-sucedido ousa acenar com promessas para a vida futura. Para serem ouvidos, incansáveis mensageiros evangélicos despejam em rádios e programas de televisão as mesmas esperanças de prosperidade financeira e pessoal oferecidas pelo capitalismo.

Uma felicidade que não seja para esta vida não interessa aparentemente a ninguém, mas a felicidade prometida para esta vida pode controlar quem quer que seja. O divino hoje em dia é o capital – o nirvana, o crédito ilimitado.

Há aqueles que dizem amém.


Traduções e… traduções

Para os cristãos em geral a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É ”Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) – não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia – sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.

De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:

Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.

Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?

A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.

Nada mais longe da verdade.

Unidade na diversidade

A variedade de traduções disponíveis da Bíblia já era um problema real na época de Agostinho (354-430 d.C.), o teólogo africano que estabeleceu os fundamentos da teologia moderna. Aos cristãos de fala latina da sua época, quase tão ansiosos quanto os de hoje para resolver a questão da versão mais fidedigna, Agostinho propôe em sua Doutrina Cristã duas soluções distintas. A primeira, ao mesmo tempo mais direta e mais exigente, requeria o conhecimento ou o aprendizado das línguas originais:

O grande remédio para a ignorância dos significados precisos é o conhecimento dos idiomas. E pessoas que falam a língua latina precisam de outros dois idiomas para compreender a Escritura, o hebraico e o grego, para que possam recorrer aos textos originais se a infinita diversidade de tradutores latinos os lança em dúvida.

Já no tempo de Agostinho, entretanto, o conhecimento do hebraico e do grego não era um remédio ao qual a grande massa dos cristãos podia ou se disporia a recorrer. Pensando nesses, para os quais o conhecimento das línguas originais representava uma impossibilidade prática, Agostinho propõe uma segunda solução. Ela baseava-se justamente na “infinita” diversidade de versões disponíveis:

E essa circunstância [a diversidade de traduções disponíveis] deveria facilitar ao invés de dificultar a compreensão da Escritura, se ao menos os leitores fossem menos descuidados. Pois o exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. Por exemplo, naquela passagem do profeta Isaías [58.7], um tradutor diz ‘não despreze os domésticos da tua semente,’ enquanto outro diz ‘não dê as costas à tua própria carne’. Cada uma destas versões confirma a outra, pois uma é explicada pela outra. Quando as expressões usadas pelos dois tradutores são comparadas, sugere-se ao leitor um sentido mais provável das palavras, isto é, o mandamento de que não devemos desprezar nossos próprios familiares. Isso porque, quando se compara a expressão ‘domésticos da tua semente’ com ‘carne’ o significado de parentesco vem naturalmente à mente. (…) Não se pode determinar qual seja a tradução literal sem que se recorra ao texto na língua original, mas mesmo assim aos que as lêem com entendimento uma grande verdade pode ser encontrada em cada uma – pois é raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante.

O parecer de Agostinho é, portanto, que o estudo comparativo de diferentes traduções pode dar ao leitor da Bíblia uma idéia mais aproximada do texto original do que qualquer tradução isolada poderia fazer. Sobrepondo diversas camadas de traduções o leitor pode vislumbrar, através delas, o sentido original do texto, que seria de outra forma inacessível sem o conhecimento das línguas originais.

“O exame de um maior número de versões freqüentemente lança luz sobre uma passagem obscura. É raro que os intérpretes divirjam tanto a ponto de não tocarem um significado importante”.

É justo mencionar que Agostinho não menospreza a importância das traduções literais, “mais próximas à letra do original”. Sua recomendação final é que leitor não deixe de recorrer a elas:

Não que elas [as traduções literais] sejam suficientes, mas porque podemos usá-las para corrigir a liberdade e o erro de outros, que em suas traduções escolheram seguir o sentido das expressões tanto quanto as palavras.

A postura de Agostinho demonstra uma sobriedade que está, na prática, ausente das discussões contemporâneas a respeito do mesmo assunto. O teólogo enfatiza a importância das traduções literais e reconhece o valor das versões dinâmicas, mas nega a qualquer versão particular o status de definitiva. Segundo essa visão, nenhuma tradução é autônoma e suficiente, e todas devem ser vistas como ferramentas que só são úteis na medida em que se completam e se confirmam.

A Bíblia hebraica na biblioteca de Alexandria

Não devemos pensar, no entanto, que a grande explosão de traduções da Bíblia começou na época de Agostinho, nem supor que o teólogo introduziu na polêmica uma tolerância que não existia antes.

De fato, no que diz respeito às versões da Bíblia os antigos mostraram-se em tudo menos resistentes à mudança do que os belicosos cristãos contemporâneos. Muito antes que o Novo Testamento começasse a ser escrito (quando o Antigo Testamento era ainda de direito o Novo), veio à luz uma tradução formal da Bíblia Hebraica em grego, para o benefício das incontáveis comunidades judaicas de fala grega espalhadas pelo Império Romano.

Essa tradução, que viria a ser conhecida como Septuaginta, foi produzida por volta do terceiro século a.C. na cidade egípcia de Alexandria, que abrigava na época a maior colônia judaica do Império fora da Palestina.

Segundo uma tradição preservada na (provavelmente espúria) Carta de Aristéas, a Septuaginta teria surgido da ambição do faraó Ptolomeu Filadelfo de ampliar o acervo da Biblioteca de Alexandria. Sabe-se que Fildelfo, hábil diplomata e governante ambicioso, planejara de fato transformar Alexandria no mais importante centro científico e cultural do seu tempo, e enxergava a vasta Biblioteca como seu eixo principal. Ele estava nesse intento quando, diz a lenda, um bibliotecário desaforado veio lembrá-lo que nas repletas estantes da Biblioteca faltava um volume com os livros sagrados dos judeus.

Filadelfo tinha tanto a sanha do colecionador de livros quanto os recursos para remediar a situação. Ele comprou a liberdade de mil prisioneiros judeus e mandou um grupo de representantes ao sacerdote Eleazar em Jerusalém, pedindo um cópia da Lei judaica e setenta e dois intérpretes, seis de cada tribo de Israel. A delegação de setenta e tantos tradutores (daí o nome de Septuaginta, que significa “setenta” em latim) foi enviada com essa tarefa para Alexandria, onde teria concluído a tradução do Pentateuco com assombrosa unanimidade em meros setenta e dois dias.

O vocabulário do novo

Não sabemos quando e exatamente de que modo o texto completo da Septuaginta foi concluído, já que muitos tradutores diferentes parecem ter se engajado nas etapas posteriores do projeto. Fato é que a Septuaginta (hoje em dia também conhecida como LXX, “setenta” em algarismos romanos) alcançou em pouco tempo ampla popularidade, e era na época de Jesus a Bíblia de uso corrente dos judeus de fala grega do mundo mediterrâneo (e, não muito depois, também dos primeiros cristãos de fala grega).

Como não temos acesso ao texto usado como base, não temos como saber o quanto a LXX, como tradução, foi literal. Análises comparativas e testemunhos contemporâneos dão a entender que não muito. Em 130 a.C. Jesus ben Siraque, ele mesmo tradutor, opinava sobre a Septuaginta que “as mesmas coisas expressas em hebraico não têm a mesma força quando transpostas para outro idioma. Não apenas isso, mas até mesmo a Lei, as profecias e o restante dos livros diferem não pouca coisa quanto às coisas que dizem”.

Termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos.

Apesar das notórias liberdades tomadas pelos tradutores na sua versão do hebraico, o texto grego da LXX parece ter sido aceito, para todos os fins práticos, como tão confiável e abalizado – tão inspirado – quanto o original. Os próprios autores do Novo Testamento, quando citam passagens “das Escrituras” estão, na maioria das vezes, citando diretamente a tradução grega da LXX. Alguns de seus argumentos, na verdade, fazem mais sentido à luz da versão da Septuaginta do que à do texto autorizado da Bíblia em hebraico, o chamado Texto Massorético, fixado por exegetas judeus entre os séculos VI e X d.C.

Ainda mais importante foi o fato de que a versão da LXX inspirou o estilo, o vocabulário e a estrutura da argumentação dos autores do Novo Testamento, especialmente no que diz respeito a Paulo. Na transposição de palavras hebraicas para palavras gregas, termos gregos passaram a ganhar significados hebraicos. A palavra grega para “graça”, por exemplo, deixou de significar apenas “charme, beleza”, para passar a representar o favor e a postura benevolente de Deus. O mesmo se aplica ao termo “carne”, que Paulo usou em grego esperando que fosse entendido em suas implicações hebraicas.

A quinta coluna de Orígenes

Com a emergência do cristianismo a Septuaginta acabou perdendo a sua popularidade entre os judeus, passando a ser associada quase que exclusivamente ao público cristão. Novas traduções foram surgindo para preencher a lacuna.

Pelo menos três versões da Bíblia Hebraica para o grego vieram à luz durante o segundo século depois de Cristo. Um judeu ou prosélito de Ponto chamado Áquila produziu uma tradução radicalmente literal, talvez com o propósito refletido de opor-se à abordagem e à autoridade da LXX. Em contraposição à versão de Áquila, que muitas vezes sacrificava por completo o sentido e a gramática grega em favor da literalidade, dois tradutores posteriores, Símaco e Teodócio, produziram independentemente traduções bastante livres, em grego ao mesmo tempo acurado e fluente. Ambos chegaram a alcançar alguma popularidade entre os cristãos, que segundo Jerônimo preferiam ler em suas igrejas o livro de Daniel na versão de Teodócio.

No terceiro século o erudito cristão Orígenes empreendeu uma monumental revisão da Septuaginta, concluída em 245 a.C. Essa obra, que tomou vinte e oito anos de trabalho, ficou conhecida como Hexapla (Sêxtupla), e cada uma de sua páginas tinha seis colunas: na primeira ficava o texto hebraico do Antigo Testamento, na segunda o mesmo texto transliterado para letras gregas, na terceira a mesma passagem na versão em grego de Áquila, na quarta a de Símaco, na quinta a LXX revisada por Orígenes e na sexta a versão de Teodócio.

Embora nenhum manuscrito completo da Hexapla tenha sobrevivido, a iniciativa de Orígenes permanece como austero testemunho de uma concepção muito peculiar, e de certa forma perdida, a respeito da autoridade da Bíblia e da natureza e papel da tradução. Essa concepção encontraria eco na posição de Agostinho cem anos mais tarde: a idéia de que nenhuma tradução é boa a ponto de ser suficiente; de que a boa tradução é aquela colocada ao lado de outra contra a qual possa ser comparada.

Apenas a quinta coluna da Hexapla, a LXX de Orígenes, foi preservada na íntegra em diversos manuscritos sobreviventes. As revisões posteriores da Septuaginta foram, em grande parte, desenvolvidas a partir dela.

O mundo converte-se ao latim

A Septuaginta era uma tradução para o grego da Bíblia Hebraica (a porção da Bíblia que os cristãos chamam de Antigo Testamento); a difusão do cristianismo, no entanto, dependia da propagação do ensino de Jesus e dos apóstolos, fixada nos evangelhos e nas cartas.

Apesar da popularidade e da universalidade do idioma grego em que foi originalmente escrito, logo surgiram diversas traduções independentes do Novo Testamento em outras línguas. Um dos primeiros esforços nesse sentido foi empreendido por Taciano, que no segundo século traduziu para o siríaco uma compilação dos quatro evangelhos que veio a ser conhecida como Diatessaron. Nos séculos que se seguiram foram produzidas versões do Novo Testamento em copta, armênio (reputada como uma das traduções mais fluentes e fiéis), georgiano e etíope, e porções da Bíblia foram traduzidas para inúmeros outros idiomas.

Ao mesmo tempo em que o cristianismo se expandia, outra importante e imprevisível mudança cultural ocorria em segundo plano: o latim começava a desbancar o grego como língua mais importante do ocidente. A língua de Roma avançava a passos largos no sentido de estabelecer a sua primazia como língua universal, uma primazia que não sofreria qualquer ameaça séria por mais de dez séculos.

Já em meados do quarto século circulavam porções traduzidas de ambos os testamentos em latim, de qualidade desigual e representando as mais diversas origens e tendências. Segundo Agostinho havia, lembremos, “uma infinidade de traduções”; segundo Jerônimo circulavam “quase tantas versões quanto cópias”. A necessidade de uma tradução formal e integral da Bíblia para a língua da vez acumulou-se até 382, quando o papa Dâmaso pediu ao erudito Jerônimo, recém-chegado a Roma, que se dedicasse à tarefa.

“Haverá homem que não me chamará de falsificador?”

Jerônimo verteu a Bíblia para o latim a partir das línguas originais: o Novo Testamento a partir do grego e o Antigo Testamento a partir do hebraico. Sua tradução, que veio a ser conhecida como Vulgata (da palavra latina para “comum, acessível, popular”), não foi bem recebida inicialmente, especialmente porque ele havia ousado trabalhar a partir do Antigo Testamento em hebraico, apartando-se das soluções consagradas do grego da Septuaginta, que gente como Agostinho acreditava ser tão inspirada quando o texto hebraico.

Na carta que escreveu ao papa para apresentar a primeira porção da Vulgata, a sua tradução dos evangelhos, Jerônimo expôe temores que se refletiriam na mente de tradutores posteriores, mas que no caso dele mostraram-se quase que inteiramente infundados: “haverá homem, instruído ou não, que ao tomar em suas mãos este volume, e perceber que o que lê não condiz com os seus gostos estabelecidos, deixará de irromper imediatamente em linguagem furiosa, e de chamar-me de falsificador e profano por ter tido a audácia de acrescentar o que quer que seja aos livros antigos, ou fazer quaisquer alterações e correções que sejam?”

O mais longo reinado

Nenhuma reação adversa impediu que a Vulgata alcançasse consagração sem precedentes, e se mantivesse por muitos séculos como a única Bíblia de uso universal do mundo católico europeu.

A tradução de Jerônimo, na verdade, influenciaria a história da igreja e da teologia mais do que nenhuma outra. A Vulgata deixou como herança grande parte da terminologia teológica moderna (é por causa dela, por exemplo, que sabemos que no princípio era o Verbo). A Vulgata foi também a ponte através da qual inúmeras palavras e conceitos do grego chegaram até nós.

A Vulgata sofreria perdas com a acumulação de erros dos copistas, e passaria por importantes revisões ao longo dos anos, mas sua reputação permaneceria praticamente intocada por mais de um milênio. Foi a Bíblia dos monges e mosteiros e abades e reis católicos e cruzados e cavaleiros e descobridores e inquisidores. De fato, a Vulgata foi a Bíblia, a versão padrão e universal da Bíblia, por mais tempo do que qualquer outra.

Mil anos depois da chegada de Jerônimo a Roma, Wycliffe colocou o ponto final na sua famosa tradução da Bíblia para o inglês: era uma versão literal da Vulgata.

Quando Lutero pregou as suas indignadas teses nas portas da igreja de Wittenberg, elas estavam escritas em saudável latim.

Do latim da Vulgata nasceria tanto a reforma quanto a língua portuguesa.

A Bíblia que Jesus lia, e a outra que ele citava

Para resumir o que foi dito pode ser útil visualizar na linha do tempo as duas porções da Bíblia e suas duas principais traduções na Antigüidade:

Não devemos deixar que essa simplificação nos faça perder de vista o fato de que em cada um desses intervalos circulavam inúmeras traduções independentes do texto bíblico, numa infinidade de idiomas.

Muitas delas, na verdade, “circulavam” antes de serem colocadas por escrito.

Cinco séculos antes de Cristo, quando os judeus começaram a voltar do exílio babilônico para a Palestina, o aramaico passou a substituir gradualmente o hebraico como língua falada no dia-a-dia. Nos dias de Jesus o hebraico era usado apenas nas discussões teológicas e no culto, e o aramaico era a língua geral da população.

Logo tornou-se prática usual, para benefício do público, traduzir e explicar em aramaico cada porção da Escritura hebraica lida na sinagoga. Essas versões livres do Antigo Testamento em aramaico foram repetidas e buriladas até o ponto de alcançarem formas fixas que, como o restante das tradições judaicas, passaram a ser transmitidas oralmente. Essas traduções, algumas delas rígidas, outras mais livres do que a mais selvagem paráfrase contemporânea, ficaram conhecidas como targumim (singular targum), da palavra hebraica targem, “transpor, parafrasear, interpretar” (conforme Esdras 4.7).

Vários targumim coexistiam pacificamente na Palestina do tempo de Jesus. Mesmo antes de serem colocados por escrito (a partir do primeiro século, provavelmente) os targumim já desfrutavam de ampla aceitação, e eram por vezes vistos como tendo a mesma autoridade dos textos originais. De fato, algumas citações do Antigo Testamento feitas pelos autores do Novo estão mais próximas do texto na versão dos targumim do que do original em hebraico ou do grego da Septuaginta (por exemplo, Marcos 4.12 e Efésios 4.8).

Pelo que sabemos o próprio Jesus pode ter feito uso das versões livres dos targumim, já que com toda a probabilidade ele falava ao povo em aramaico, a língua das multidões. Evidência em favor dessa idéia é o grito registrado em Marcos 15.34: “Eli, eli, lama sabactani”, uma citação em aramaico do salmo 22.1.

Os judeus do tempo de Jesus prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos.

Esta brevíssima visão geral das versões da Bíblia na Antigüidade bastará para demonstrar que a questão da validade das traduções da Bíblia é muito mais antiga do que costumamos imaginar. Especialmente admirável, no que me diz respeito, é ver nos antigos um grau de maturidade e independência intelectual maior que o dos que hoje em dia se degladiam sobre a questão.

Fato é que os judeus do tempo de Jesus e os primeiros cristãos prendiam-se menos à letra da lei do que os acirrados cristãos contemporâneos. Eles acreditavam na coexistência de diversas traduções e paráfrases, e faziam uso de uma ou de outra versão sem aparente constrangimento. Orígenes e Agostinho defendiam com igual convicção a idéia de que a análise de diferentes traduções possibilitava ao leitor da Bíblia um vislumbre sobrenaturalmente claro do sentido do texto original – mais claro do que qualquer tradução isolada seria capaz de suprir.

Fato é que os escritores do Novo Testamento, quando citavam o Antigo, faziam uso tanto do texto interpretado dos targumim quanto da tradução grega da Septuaginta. Nas sinagogas, como as freqüentadas por Jesus e por Paulo, transitavam traduções e paráfrases amplamente aceitas do Antigo Testamento, tanto em aramaico quanto em grego.

Fato é que a única citação bíblica que Jesus fez na cruz foi uma tradução.


O Reino da delicadeza

Um desconforto vem me acompanhando há bastante tempo. A dificuldade com que muitos recebem a proposta de uma religião radicada no amor e não no medo, na liberdade e não no patrulhamento moral, na maioridade e não na infantilização.

Ouço de tudo. Aquele que acredita que para algumas pessoas uma espiritualidade baseada na consciência e responsabilidade, frutos livres de uma relação de amor e não de constrangimento, é perigosa, quando não, pouco producente para os engajamentos religiosos. Há pessoas, afirmam com um pragmatismo encabulado, que precisam de regras, coerção e cobrança. Precisam de uma religião legalista. Caso contrário, não conseguem vencer seus vícios e pecados.

Outros desconfiam da liberdade. Pregar um Deus que ama em completa independência do desempenho humano é muito arriscado. Deus também é justiça! A Graça de Deus tem que ter limite. Se a pessoa não tiver medo do inferno, vai fazer tudo o que der na cabeça. Se não souber que existe uma punição divina para os seus deslizes, vai se tornar alguém imoral.

Vejo o descontentamento de alguns com a sugestão de que a imperfeição não é pecaminosa, mas um dom divino que torna a vida significativa e mais bonita. E, apesar de ninguém conseguir uma vida perfeita, esbravejam que Deus não pode abrir mão de que sejamos perfeitos.

Tirando de lado a questão semântica, de que a imperfeição a que me refiro é alusão ao que não está pronto, ao que é livre para ser, ou ao que está sempre em via de se tornar. Liberdade e não inconseqüência, leveza e não leviandade. O que, então, incomoda tanto algumas pessoas?

Por que o anúncio libertador de que Deus não espera de nós a perfeição amedronta alguns?

Desconfio de algo. Se tirarem o medo, ou a culpa, de sua fé, ficam sem fé. Se crer em Deus não for um movimento em busca de blindagem diante da insegurança do mundo, ou absolvição sem fim de uma insuperável culpa, revelam-se incrédulos. Ateísmo desesperado.

A religião a que fomos apresentados é um comportamento motivado pelo medo. Medo de não ser aprovado, o que é o mesmo que não ser amado. Ou medo de estar fazendo a coisa errada e ganhar um destino infernal. Foi a partir desse medo que aprendemos a rejeitar comportamentos tidos como réprobos. Fazemos e deixamos de fazer coisas pelo medo de sermos punidos pela implacável justiça divina.

Mas também medo de ficarmos expostos aos infortúnios de uma orfandade religiosa. Vivemos em um mundo inseguro, que muitas vezes se mostra desfavorável à nossa busca de bem estar. A religião promete um apadrinhamento divino. Foi a partir desse medo e da expectativa de um arranjo sobrenatural para garantir uma vida de exceção que aprendemos a cultuar nossas divindades.

A voz divina que aprendemos a ouvir é ou a voz ameaçadora frente à nossa vida moral, ou a voz de uma barganha com o Céu, que em troca de devoção e obediência, oferece a proteção que poucos têm. Propor uma espiritualidade movida por amor e, portanto, gratuidade não é um remendo possível ao que já tínhamos, mas um novo e levíssimo tecido religioso.

E a metáfora não é minha. É de Jesus. A religião que ele propõe não pode ser colocada como remendo em pano velho, ou vinho novo em odre velho. Em ambos os casos a convivência implicará em ruptura. O vinho novo da gratuidade no relacionamento com Deus exige um novo odre. É muita dinâmica para pouca dilatação. Tecer uma relação baseada no amor reivindica um novo tecido. É muita tensão para pouca resiliência.

Por que muitos reagem agressivamente à proposta de que Deus não espera nossa perfeição, mas tão somente nossa integridade? Porque se tirarmos a voz culpabilizadora de sua fé, ficam com uma fé muda. Sua reação escrupulosa revela a compreensão do que pregamos como uma ameaça à sua fé. Intimidam os olhos assustados e hostis. Cansa ver-se nos olhos de alguns religiosos como um inimigo de Deus. Iconoclasta.

Mas não terá sido a mesma tensão vivenciada por Jesus?

Enxergo a mesma dificuldade em seus discípulos quando Jesus sugere outra lógica para a nossa relação com Deus. No momento mais imponente de seus argumentos. Ressurreto contra toda a injustiça e humilhação de sua morte. Com uma prova material irrecusável, forte, violenta. Irresistível. Com visibilidade incontestável. Jesus afirma que nesta exata hora o melhor será sumir. Substituir a presença irresistível, visível e poderosa pela sutileza de uma brisa: o outro paráclito tem o nome de vento, o Espírito de Cristo ao invés do Cristo ressurreto. Ele diz que sumirá nesta hora para o bem de seus discípulos.

Uma presença delicada e discreta invoca sensibilidade e cuidados como “não apaguem o Espírito.” “Não entristeçam o Espírito.” “Não resistam ao Espírito.” Uma presença que não nos substitui no enfrentamento da vida. Que não nos infantiliza em proteções excepcionais. Que não manipula comportamentos. Sem regras. Que faz da liberdade o ambiente próprio para a nova humanidade esboçada em Jesus. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.

Somente um Deus com presença discreta pelo Espírito, uma quase ausência visível e implacável, é capaz de lembrar-nos de que não somos escravos, mas filhos e não nos esmagar com sua absurda e insustentável grandeza. Daí compreendermos a imagem de Deus permitindo a Moisés ver a sua glória escondendo-o com a mão em uma fenda na rocha. Vê as suas costas, desfilam sua bondade e misericórdia. Tudo de Deus que podemos ter sem sermos desintegrados. Suas costas. Sua ausência de poder e força.

A presença discreta de Deus por meio do Espírito é a nossa única chance de integridade.

Um Deus discreto é um Deus presente em todas e quaisquer situações. Uma religião discreta resiste a tentação de infantilizar as pessoas com medo dela mesma deixar de existir. É a vida proposta por Jesus a Nicodemos, nascida do Espírito, como o vento que ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai.

Uma religião com pouco pastoreio e muita tolerância. Com dogmas frágeis e ritos sutis. Que deixa morrer suas instituições para sobreviver sua gente. Que desiste da hierarquia e esconde-se nos santos anônimos. Que ri dos jogos de poder e reverencia os gestos de amor. Que abre os braços, em cruz, para os riscos para não deixar de abraçar os vivos. Acolhimento das angústias e inseguranças das liberdades. Fermentação de humanos.

Um lugar que é menos espaço e mais acolhimento. Um culto que é menos tempo e mais encontro.

Só uma religião discretíssima sobrevive a um Deus que é Espírito.

Só uma religião discretíssima sobrevive à infantilização das almas apregoadas por muitos religiosos.

Enfim, só uma religião discretíssima sobrevive para ver o Reino aqui e acolá.


Arrepender-se é mudar o mundo

O arco da narrativa de Lucas, que se alça no evangelho que traz o seu nome e se fecha graciosamente no livro de Atos, é sustentado por um bom número de conceitos-chave, motivos centrais que [re]aparecem em momentos estratégicos e amarram dessa forma a sua estrutura. São temas como batismo, arrependimento, salvação, plano divino e a relação entre a rejeição e a expansão da mensagem da boa nova.

Dentre esses, o menos importante não será a noção de metanoia/arrependimento. A raiz grega para “arrependimento” aparece 25 vezes no trajeto de Lucas-Atos, número que representa mais de 45% de todas as ocorrências da palavra no Novo Testamento. Mais importante do que observar essas cifras, no entanto, será notar que os demais autores do Novo Testamento, quando usam a palavra, não se dão ao trabalho de defini-la ou de fornecer para ela quaisquer verdadeiros pontos de referência. Lucas é o único autor neotestamentário a apresentar chaves numerosas e inequívocas para que seu leitor entenda a natureza do arrependimento, “Frutos dignos de arrependimento”, isto é, atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade, conforme anunciado por Jesus e por seu precursor, bem como as implicações da ideia para a comunidade cristã e para a sociedade como um todo.

Para o autor de Lucas e Atos o arrependimento é uma forma muito peculiar e prenhe de consequências de mudança de mentalidade. Sua ideia de arrependimento tem, na realidade, pouca relação com a arapuca cheia de implicações teológicas com que tentamos aprisionar a palavra.

Muito embora no evangelho de Lucas João Batista dê início ao seu serviço público apregoando o “batismo de arrependimento tendo em vista a remissão de pecados” (Lucas 3:3), nesta narrativa arrepender-se não é o mesmo que “abraçar o perdão”, nem é o mesmo que “abandonar uma vida de pecado” (pelo menos não no sentido seletivo que costumamos atribuir a perdão e pecado).

Muito embora João Batista deixe muito claro (Lucas 3:8) que o apego à tradição religiosa não tem poder para poupar quem quer que seja da ira vindoura (“nem comecem a dizer em si mesmos: ‘Nosso pai é Abraão’”), para Lucas arrepender-se também não é mero recurso para se evitar a punição divina.

Tanto “abandonar o pecado” quanto “evitar a punição”, ideias através das quais estamos habituados a interpretar o termo arrependimento, tem uma natureza negativa: enfatizam o que não deve ser feito e aquilo que pode ser evitado. Na narrativa de Lucas-Atos, o arrependimento é sempre coisa a ser lida numa lente positiva: diz respeito, invariavelmente, ao que deve ser, a partir daquele momento e para sempre, colocado em prática.

Para Lucas, a mensagem do arrependimento não anuncia coisa alguma a respeito do que Deus está fazendo; ela anuncia tudo a respeito do que você deve fazer. Para Lucas, as implicações do arrependimento não são teológicas, mas práticas. Para Lucas, arrepender-se é um modo de abraçar a salvação pelo método de salvar os outros.

Isso fica evidente desde o primeiro momento em que a ideia é apresentada pelo autor, no terceiro capítulo do seu evangelho. Às multidões que saíam para ser batizadas por ele, João Batista dava a entender, sem qualquer rodeio, que o seu batismo não representava garantia alguma ou mérito algum (vv. 7-8). “O que vocês devem fazer”, ele esclarece em seguida, “é produzir frutos dignos de arrependimento”. Em outras palavras, o que Deus está exigindo de nós não são ritos ou profissões de fé, mas atitudes que evidenciem a nossa mudança de mentalidade. Porque as árvores que não dão frutos – isto é, os adoradores que não produzem evidência da sua mudança de critérios – estão sendo cortadas e lançadas no fogo (v. 9).

Diante dessa exigência, os ouvintes de João Batista apresentam-lhe a pergunta que será ecoada sem alteração pelos ouvintes de Pedro no Pentecostes: o que devemos fazer?

A resposta oferecida pelo Batista é de importância épica, porque revelará quais são, na opinião divina que ele está representando, as implicações da metanoia. Quais são as atitudes que evidenciam o arrependimento/mudança de mentalidade? Que resposta você daria a quem lhe perguntasse quais são as exigências do arrependimento bíblico?

Para surpresa e embaraço eternos de igrejeiros antigos e contemporâneos, o arauto de Deus não entende o arrependimento como chamado à religião ou à abstinência, mas como convocação à justiça social, à integridade e à distribuição de renda:

“Quem tem duas túnicas”, exige João Batista, “reparta com o que não tem nenhuma. Quem tem comida deve fazer o mesmo”.

Para nossa felicidade, alguns cobradores de impostos aparecem logo em seguida para serem batizados por João – isto é, estão dispostos também eles a abraçar o arrependimento, – e fazem-lhe precisamente a mesma pergunta: e nós, o que devemos fazer?

A resposta de João: “Não cobrem mais do que lhes foi prescrito.”

E, logo depois, alguns soldados: e nós, o que devemos fazer?

João: “Não tentem extorquir o que pertence aos outros fazendo denúncias falsas. Contentem-se com o seu soldo”.

Neste ponto será necessário mais uma vez parar no acostamento e enfatizar o caráter absolutamente revolucionário dessas divinas interferências. Pois o reino de Deus anunciado por João Batista e por Jesus não implica apenas na abolição da ideia de religião como esforço de reconciliação com Deus por parte do homem. Nesta nova intervenção Deus não quer nos salvar das nossas faltas ou do castigo que elas requerem, o que seria fácil demais; seu ambicioso e exigentíssimo plano é salvar-nos da nossa mediocridade. Seu plano é salvar-nos de nós mesmos.

Para os arautos das boas novas nos quatro evangelhos, o homem deve arrepender-se não porque o arrependimento é a resposta adequada ao pecado, mas porque teve início um novo e assombroso período da história. A motivação para se adotar a nova mentalidade é a vertiginosa notícia de que o reinado de Deus foi inaugurado. Arrependei-vos, minha gente, porque é chegado o reino de Deus.

E embora não conheçamos o retrato completo deste novo mundo que Deus está sonhando, anunciando e implantando, os evangelhos vão indicando que ele será caracterizado por inúmeras revoluções por minuto em todas as áreas da atividade humana. Este novo mundo requer uma nova mentalidade, uma nova visão de mundo, e adotar esta nova cabeça é precisamente arrepender-se.

É por isso que em suas respostas João Batista vai esclarecendo que o arrependimento deve necessariamente abranger todo um leque de dimensões éticas, sociais e antropológicas.

Como o cerne do projeto do reino é uma reconciliação radical entre os seres humanos, com a consequente criação de uma nova comunidade, a primeira e mais geral revelação é a de que todos, não apenas os ricos, tem a responsabilidade de repartir. Onde todos tem a mesma ausência de merecimento, todos merecem rigorosamente a mesma coisa – pelo que toda e qualquer desigualdade deve ser voluntariamente corrigida pelos componentes do sistema (“quem tem duas túnicas reparta com o que não tem nenhuma. e quem tem comida deve fazer o mesmo”). Em segundo lugar, como explicam as respostas dadas aos soldados e aos cobradores de impostos, a nova era exigirá, mesmo daqueles colocados nas mais comprometedoras posições da sociedade, uma postura radical de integridade pessoal.

A metanoia representa uma revisão completa do modo como os seres humanos interagem uns com os outros, e isso porque o novo estado de coisas do reino exigirá tudo de todos e algo diferente de cada um. Embora acabe representando desafios diferentes de acordo com a presente posição do indivíduo na sociedade, as marcas do arrependimento dizem sempre respeito à relações interpessoais, e requererão invariavelmente uma postura de altruísmo, inclusão e misericórdia. Como deixam abundantemente claro os três exemplos deste episódio de Lucas, arrepender-se é rever a nossa posição sobre quem é digno de Deus, e portanto sobre quem é merecedor da nossa amizade, da nossa lealdade e da nossa túnica extra.

Esta, e não servir de ilustração da vida futura, é a razão de ser da parábola do rico e o Lazáro (Lucas 16:19-31). Na parábola o homem rico mostrou-se merecedor dos tormentos do inferno porque, diante da oportunidade que jazia literalmente à sua porta, recusou-se a arrepender-se. O rico é punido porque negou-se a abraçar a lógica inclusiva do reino e repartir com o Lázaro uma parcela dos seus recursos. De seu posto de sofrimento e exclusão, o rico pede a Abraão que permita que o mendigo se apresente na terra dos vivos aos seus cinco irmãos, porque “se alguém dentre os mortos for ter com eles, eles hão de se arrepender” – isto é, mudarão o seu modo de interagir com os outros/pobres.

Paralelamente, há outro símbolo potente nas respostas dadas por João Batista aos soldados e aos cobradores de impostos. Os dois grupos representavam categorias que viviam – e muitas vezes por boas razões – às margens da aceitação social. Soldados e cobradores de impostos não mereciam tratamento cordial e não tinham cacife para participar da comunidade de Deus. Ao se dispor a responder as suas perguntas, João acaba revelando o impensável: que o arrependimento (e portanto o acesso ao reino e à salvação) está aberto mesmo aos desprezíveis e desprezados, aqueles que a sociedade decidiu serem inteiramente indignos de inclusão social fora do seu próprio círculo. Arrepender-se, na ótica mais ampla do reino, é tanto mudar de ideia a respeito de quem é aceitável quanto passar a viver fornecendo a todos indicação de que todos são aceitáveis.

É preciso lembrar que o mundo da Antiguidade era, talvez ainda mais do que o nosso, regido pela crença indiscriminada em categorias sociais estanques, barreiras que milagre algum podia alterar ou derrubar. A inclusividade brutal do reino de Deus, como proposto por Jesus e João Batista, representava e representa uma tremenda ameaça a esse estado de coisas.

E, como declarado nos evangelhos, a revolução igualitária do reino começa pessoa a pessoa pela guerrilha do arrependimento, que no vocabulário da boa nova não é remorso e não é contrição, mas uma mudança definitiva e radical no modo de se ver e experimentar o mundo e a relação com o Outro.

Arrepender-se é mudar o mundo. Numa palavra, Jesus prega a aceitação de todos, e essa inclusividade requer uma extrema revisão no nosso modo de pensar pessoas e comunidades. Essa mudança de mentalidade altera cada aspecto da vida, e produz uma completa reorientação de crenças, critérios e atitudes.

Na prática, como explicam os exemplos do evangelho de Lucas, o arrependimento trabalhará sempre para corrigir desigualdades e injustiças sociais, morais, éticas, financeiras e religiosas. Contribuirá para alterar visões de mundo que causavam a exclusão. Servirá de instrumento de ressocialização, possibilitando a criação de um comunidade inclusiva sem qualquer paralelo na história anterior ou posterior da humanidade.

Essa reforma de ponto de vista altera o próprio tecido da realidade, porque muda o que as pessoas se mostrarão dispostas a fazer umas pelas outras. Criará ao mesmo tempo um ambiente novo, onde gente de diversas origens e orientações, que vivia antes alienada, poderá conviver como povo de Deus.

Esta insana reprogramação é o que os arautos da boa nova chamam de arrependimento/metanoia.

Vendo-se as coisas por esta ótica, fica evidente que a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) não é contada para constrastar um filho austero e um filho devasso, nem para mostrar a diferença entre um filho volúvel e um pai constante. O conflito central da parábola só é colocado em andamento quando o filho pródigo aparece arrependido no horizonte, porque esta narrativa serve para constrastar duas atitudes possíveis de uma comunidade diante do arrependimento. Por um lado, o pai acolhe o arrependimento como motivo de júbilo e ressocialização; por outro, o filho mais velho vê a inclusão como motivo de ódio e horror.

A lição da parábola está em que na visão de mundo do reino a inclusividade, o perdão e a misericórdia nunca devem ser vistos com rancor ou como falta de critério, mas como ensejo para a mais irrestrita e exuberante celebração. A narrativa explica que é mais fácil um de fora arrepender-se (isto é, sentir-se disposto a incluir e a ser incluído) do que os que se sentem incluídos se mostrarem dispostos a abraçar sem qualquer trâmite os de fora. O verdadeiro desafio do arrependimento, o verdadeiro funil da conversão de mentalidade exigida pelo reino, é sermos capaz de engolir gostosamente essa medida geral e irrestrita de inclusão.

Mas a boa nova não se cala, e insiste imoderadamente que a conversão de mentalidade do reino está ao alcance de todos – até mesmo de patifes como nós, que via de regra não nos consideramos pecadores como os outros. Porém, a história conta que para nós arrepender-se representará aceitar no nosso seletíssimo círculo a inclusão daqueles de que estamos absolutamente convictos não merecem nossa consideração – quanto mais nosso beijo, nosso abraço e um lugar inesperado à mesa.

Paulo Brabo