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O banho

Tia Cida estava no ponto de ônibus quando viu aproximar-se uma penquinha de crianças. Tinham as roupas puídas e a pele de um tom cinza empoeirado. Brincavam de dar tapas e pontapés, corriam, gritavam, voltavam e se acabavam de rir.

Tia conversou um pouco com eles e descobriu que eram irmãos. Depois de alguns minutos, pediram uma moeda.

– Estou sem dinheiro. Mas toma uns biscoitos aqui, ó.

O mais velho pegou o pacote e os outros se ajuntaram. E no meio daquele cercadinho de pernas finas e joelhos protuberantes, mãos imundas, cabelos grudados e carinhas inocentes de meninos Jesus, o menorzinho deles, todo entusiasmado, anunciou a grande novidade:

– A gente quer dinheiro é pra comprar sabão. A mãe vai lavar nóis hoje.

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Seu Silva, o anarquista

“Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para escondê-la”.

V de Vingança.

Baseado numa história inverídia contado por um mentiroso que não consegue conviver com a verdade imposta pela realidade:

Brasília. Praça dos Três Poderes. Prédio do Senado Federal. Salão de sessões.

O anfiteatro está quase pronto para receber o maior espetáculo da Terra. As cadeiras estão vazias, não há ninguém se não o faxineiro, seu Silva, que molha freneticamente seu esfregão no balde de água para limpar o palco. É preciso que tudo esteja perfeitamente limpo, pois depois podem dizer que a sujeira que aparece na televisão é culpa sua.

Silêncio. Eis a medida exata da verdade.

Os microfones em pedestal são símbolos de magnitude. Uns mais acima, outros mais abaixo, posicionados conforme a estatura e o tamanho do ego de cada um.

Nas bancadas, cada qual com seu nome. Sozinhos, são apenas “jagunços”, “coronéis”, “vossa excelência”, etc. Juntos, são imbatíveis.

Seu Silva escuta passos. Assustado, levanta a cabeça na espera dos homens de preto entrando com sorrisos insossos. Calma, é só seu companheiro de jornada, o vigilante Tião. Ele veio realizar o serviço mais nobre da sessão: desenhar com giz a bandeira nacional no tapete bem aos pés da grande tribuna, o altar dos homens do poder, em que demagogias e musiquetas são expressas no rastro de acalmar os ânimos exaltados.

As mãos firmes de Tião reforçavam caprichosamente o contorno da bandeira quase apagado. Naquele dia sua vontade foi também escrever “ordem e progresso”. Uma vez viu no livro de História que estes dizeres eram coisa de ditadura, mas precisavam ver de perto como era aquilo ali quando estava cheio, talvez mudassem de ideia.

Que estranho. Por um momento Tião percebeu que a bandeira estava bem aos pés daqueles que falavam pelos cotovelos sobre a tribuna. Refletiu que seu serviço não era tão nobre assim…

E seu Silva perguntou para Tião:

– O que vai ter pra hoje?

E Tião respondeu para seu Silva:

– Hoje é sobre educação. Tomara que dessa vez a coisa vá. Para mim não adianta muito, meu filho já está se formando, e tive de pagar todos seus estudos.

Seu silva abaixou a cabeça e continuou esfregando. Dessa vez com mais força, tudo para que aquele lugar reluzisse. Tinha um neto de apenas oito anos.

Pronto. A bandeira está feita. Sem as cores de costume, mas neste lugar a cor cinza do tapete parece que lhe cai bem.

– Já terminou seu Silva? Está quase na hora de começar – disse Tião olhando para seu relógio.

Seu Silva desistiu de esfregar, chegou à conclusão que não havia a menor possibilidade daquilo ficar 100% limpo. Pegou seu balde e esfregão e desceu ao encontro do colega de trabalho.

Por um instante os dois contemplaram aquela imensidão. Estáticos, olhares esperançosos com o futuro e pesarosos com o presente.

– O que fazer seu Silva? – a pergunta de Tião foi tão repentina e profunda que seu amigo se sentiu o responsável por tudo aquilo.

Antes que seu Silva pudesse dizer alguma coisa, seu amigo tinha lhe dado as costas enquanto desaparecia por uma das portas laterais do imenso salão.

Mas algo mudou naquele momento.

Os batimentos cardíacos de seu Silva subiram rapidamente. Suas mãos suavam frio. Seu rosto queimava como uma brasa. O corpo todo parecia desejar sair daquele estado de letargia, inércia. Por um momento achou que estava tendo um enfarto, mas logo percebeu que era indignação.

Foi então que ele levou sua mão ao bolso esquerdo e tirou um pequeno papel dobrado de forma desajeitada. Há anos sonhava com aquilo, há anos trabalhava no Congresso, mais alguns anos e estaria aposentado. As oportunidades estavam diminuindo a cada momento. Era agora ou nunca.

– Pra merda essa tal de Repúbrica!

Apertado pela força da mão esquerda fechada, o papel e seu Silva seguiram em direção à tribuna. Passos rápidos e firmes.

E lá estava o faxineiro, desdobrando rapidamente a pequena folha envelhecida e encharcada pelo suor de sua mão.

“Larga de ser cagão homem!”. Era só isso que ecoava na mente de seu Silva. Deu duas batidinhas no microfone e ouviu o som da microfonia tomar conta do salão.

Era o momento.

Lembrava-se como se fosse hoje quando ouviu seu filho recitar aqueles versos para ele. Achou-os triste, porém belos e verdadeiros.

“Foi ocê quem escreveu isso?”, perguntou ao filho com olhos lacrimejados. “Não pai, foi Shakespeare. É um trecho de sua peça chamada Macbeth”.

E depois disso nunca mais os esqueceu. Leu, releu, decorou, mas nunca recitou em público. A vergonha era tanta que o inibiu até aquele momento.

Foi então que seu Silva, o faxineiro do salão de sessões do Senado, assim recitou seus versos prediletos para o plenário vazio:

“Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
os mais inúteis com riqueza e sorte
e a fé mais pura triste ao ser traída
honras a quem vale nada
a virtude prostituída
a perfeição caluniada
a força, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sábio, decidindo
Farto de tudo, penso: parto sem dor.
Mas, ao partir, deixo só o meu amor”.

E depois o silêncio.

Embargado pela emoção, seu Silva desceu as escadas e tomou rumo pela saída principal. Tempo suficiente para que os senadores fossem chegando por várias entradas como formigas que encontraram um pote de açúcar com a tampa aberta.

Não tá certo. O povo não deve ter medo dos político, mas os político que deve ter medo do povo.

Mas seu Silva deixou de lado seus pensamentos, era hora de descansar. Amanhã seu amigo Tião desenharia mais uma vez a bandeira nacional, enquanto o escutaria cantar aquela música com o trecho bonito: “Deitado eternamente em berço esplêndido…“.

Antes de sair, seu Silva ouviu o grito patético de “Ordem na sessão!”, o que desfez completamente o silêncio da verdade.


Fé e esperança

Era um lindo final de tarde de sábado, ele dirigia o carro enquanto sua mulher acariciava seus cabelos, estavam felizes, há poucos meses tiveram seu primeiro filho, uma linda menina que dormia tranqüilamente no banco de trás do carro em sua cadeirinha especial.Estavam voltando para casa depois de um dia inteiro no shopping, compraram muitas roupinhas para o bebê e já faziam muitos planos para ela. Era realmente um momento muito mágico na vida daquele casal, mas existia algo que eles não contavam que poderia acontecer, e que constantemente muda nossas vidas, o Inevitável.

Por um momento que mais se parecia uma eternidade, um carro desgovernado entrou na contra mão e veio na direção dos dois, por puro reflexo ele desviou do carro, mas acabou perdendo todo o controle do automóvel despencando de cima da ribanceira, mergulhando nas águas gélidas do rio.

Foi como se a Terra tivesse parado de girar, ela viu seu marido desacordado, olhou para trás e viu sua linda filha tentando encontrar ar para respirar, ali ela teve de tomar a decisão mais difícil da sua vida, sabia que seria impossível salvar os dois ao mesmo tempo, era a sua filha que tinha uma vida inteira pela frente ou o seu grande amor.

Não era muito religiosa, mas acreditava que existia uma força maior do que ela, assim ela pediu com todas as suas forças para que um milagre acontecesse para que salvasse os dois. Mas não havia tempo para esperar que os milagres acontecessem, daqui a pouco ela também não teria mais fôlego para ficar debaixo d’água e acabaria não salvando nem a si mesmo.

Deixou que seu coração escolhesse por ela, foi para trás do banco e soltou sua filhinha da cadeira, não conseguia abrir as portas de trás do carro porque ela e seu marido sempre as trancavam para que não existisse nenhum perigo com a menina, teve de voltar para o banco da frente e agradeceu a Deus por isso, percebeu que seu marido ainda estava com o cinto de segurança preso e em um ato muito rápido o soltou, ainda teve tempo de olhar pela última vez para ele com o coração apertado, depois subiu para salvar a vida de sua filha.

Quando o sol tocou seu rosto ela entendeu todo o significado da vida num simples ato de respirar, percebeu que o bebê estava com dificuldades de respirar e a ajudou fazendo uma respiração boca a boca até que ela voltasse a respirar novamente.

Tratou de ir para a encosta do rio, precisava que sua filha saísse daquela água gélida, pois havia o risco dela ficar muito doente por isso. Quando chegou a margem, se voltou novamente para o rio na esperança de que seu milagre tivesse acontecido, de que Deus tivesse tido pena dela e assim salvado o seu marido. Mas os milésimos de segundos que muitas vezes são desprezados por nós passavam rapidamente e isso a sufocava por dentro, por que isso significava que estava perdendo o seu amor.

Pensou em pular novamente na água e tentar um resgate quase que suicida, porém se algo acontecesse com ela, quem cuidaria de sua filha? Sabia que seu marido nunca a perdoaria se isso acontecesse e se entregou ao inevitável, só lhe restava ter Esperança.

Mas como sempre acontece em nossas vidas, quando tudo parece perdido, quando achamos que não há mais nada a fazer, quando a única coisa que podemos fazer é ter FÉ em algo que não vemos, que apenas sentimos, o Improvável acontece.

Deus tinha sim ouvido suas preces, disse Amém e seus Anjos entraram em ação, sem nenhuma explicação seu marido flutuava sobre as águas do rio a espera que ela o resgatasse.

Sem hesitar ela mergulhou novamente nas águas e começou a nadar em sua direção, rezava para que ele estivesse respirando, seu coração palpitava como se quisesse sair de seu peito, e qual foi o seu alívio quando percebeu que ele ainda respirava mesmo com um pouco de dificuldade.

***

Durante muitos e muitos anos esta história foi contada como a prova de que existe muito mais do que podemos imaginar entre o Céu e a Terra, ela sempre terminava dizendo que um milagre salvara a vida daquele homem, mas hoje eu a terminaria de uma forma diferente, terminaria dizendo que o que salvou aquele homem não fora apenas o milagre, também o amor que ela sentia por ele, fora ela que rezou com toda a fé que habitava o seu ser para que Deus o salvasse, e o mais importante do que tudo, fora ela que soltou o seu cinto, fez o que pode, o que estava ao seu alcance naquele momento, e sem isso talvez o milagre não tivesse acontecido.

Isso me faz pensar, quantas vezes nós fazemos o que podemos? Quantas vezes nós podemos ajudar as pessoas que estão a nossa volta com simples atos que muitas vezes no parece banais, mas que para aqueles que recebem é como se fosse o milagre do dia, um simples Obrigado, um Bom Dia, um Elogio e o Mundo volta a sorrir novamente para nós.

Não posso salvar o mundo com esta mensagem, que bom seria se pudesse, mas acho que posso fazer algo melhor do que isso, eu vou ter FÉ em você, eu vou ter ESPERANÇA em você, eu vou soltar o seu CINTO DE SEGURANÇA e tenho certeza que você vai SALVAR o seu mundo.

“QUE NÓS TODOS SEJAMOS O IMPROVÁVEL DIANTE DO INEVITÁVEL”


A busca da felicidade

Sétimo andar.

– Qual é o seu medo? – perguntou o psicólogo para a sua paciente sentada no divã.

– Eu tenho medo da felicidade, tenho medo de conquistá-la e logo depois perdê-la.

O psicólogo anotou em seu bloco de notas e depois tirou seus óculos.

– Em todo o Universo existe uma bipolaridade, para o Bem existe o Mal, para o Forte existe o Fraco, para a Felicidade existe a Tristeza. Você nunca sentirá a felicidade se um dia não provar o gosto amargo da tristeza.

A mulher olhou espantada para o psicólogo, há meses o consultando ele nunca lhe dera uma resposta tão objetiva, na maioria das vezes fazia outra pergunta.

– O senhor está tentando me convencer de que eu devo sofrer?

– Estou lhe dizendo que você VAI sofrer, não sou eu quem decide isso, é a própria vida.

A mulher estava começando a ficar irritada, não pagava altos honorários aquele homem para que ele dissesse que ela sofreria na vida, estava tentando fugir justamente desse destino.

– O senhor não devia falar desse modo com seus pacientes, esqueceu que você é pago para nos escutar?

– Exatamente, os conselhos eu dou de graça.

Ela irritou-se. Levantou do divã e pegou seu casaco, bateu a porta para nunca mais voltar.

Que história é essa de que eu vou sofrer?! Vou é tratar de ser feliz! Pensou a mulher ao sair do elevador seguindo em direção à saída do prédio.

O psicólogo olhou pela janela do consultório a mulher atravessar a rua e entrar em uma loja de cosméticos, sentiu a gostosa sensação de dever cumprido, provavelmente nunca mais a veria, era uma cliente a menos, mas jurou ajudar as pessoas acima de tudo. Não estava mentindo que ela sofreria, apenas tratou de mostrá-la que isso aconteceria de qualquer forma, desse modo ela não teve alternativas a não ser buscar a felicidade.

– Os opostos se atraem. – disse para si mesmo enquanto arquivava mais um caso resolvido.


O que você tem?

Já dizia John Donne*, “nenhum homem é uma ilha”, mesmo que às vezes, ou quase sempre, acreditamos que o nosso mundo é o resto do mundo, que nossa realidade é a realidade de todos, que podemos controlar os eventos os quais ocorrem a nossa volta e assim evitarmos o inevitável. Foi isso o que ocorreu com o executivo de uma multinacional. Ele era rico, possuía um apartamento em uma área nobre do Rio de Janeiro, carro do ano na garagem, cem mil reais por ano, todos os requisitos necessários para ser um homem feliz, e achava que realmente era.

Por mais que seja incômodo sempre nos deparamos com mundos completamente diferentes do nosso, para o executivo isso acontecia três vezes por semana durante quase uma hora. Para manter a forma, três vezes por semana ele corria no calçadão de Ipanema, era o momento o qual acontecia o embate das forças antagônicas, juntos estavam o belo e o feio, o rico e o pobre, aqueles que podem e aqueles que não podem, uma profusão de contrastes, e todos estavam no mesmo lugar. Caminhava lado a lado com a diferença, dava graças a Deus por existir a bela vista do mar, assim não precisaria ficar olhando para aquilo que no fundo lhe perturbava por demais.

O executivo era um homem bondoso, doava uma boa remessa de dinheiro para instituições de caridade, sua única exigência era não precisar visitar os locais, dizia ser uma pessoa muito ocupada, todavia não queria se lembrar que muitas pessoas no mundo sofriam por algo que em sua vida era banal, como ter dinheiro para comprar comida, ou poder pagar um plano médico. Não sentia e nem devia sentir-se culpado por isso, não fora ele quem criou a desigualdade no mundo, essa disparidade profunda entre as classes sociais, ganhou seu dinheiro de forma honesta, gostava de pensar que venceu na vida com suas próprias pernas.

Naquela manhã de segunda-feira ele fez o mesmo ritual de sempre antes de ir para praia, colocou seu shorts de corrida e uma camiseta regata, calçou seu tênis feito especialmente para o formato de seus pés e foi cuidar de sua saúde.

Menos de dez metros de seu prédio, e sua vida mudara para sempre.

Ele fora seqüestrado.

Infelizmente com a prosperidade de alguns surge a ganância de outros. O executivo pagou um preço alto por ter muito dinheiro, viveu dias intermináveis no cativeiro, perdido na escuridão do pequeno quartinho improvisado, nunca sabia se era dia ou era noite, muito menos se sairia vivo daquele lugar. Passou muita fome no começo, sentia-se enjoado só de ver a gororoba que os seqüestradores lhe serviam, com o tempo percebeu, ou era aquilo, ou era nada. Acima de tudo gostaria de viver para ver novamente sua mulher e suas filhas. Teve de dormir no chão duro, sentiu muito frio com o cobertor ralinho que lhe deram, chorou por diversas noites com saudades de sua cama, daria tudo para estar dormindo ao lado de sua mulher.

Arrancaram um pedaço de sua orelha como prova de vida, os policiais que estavam na frente do caso pediram uma prova que ele estivesse vivo, ninguém mais acreditava no que o coração dizia, bastava perguntar à sua mulher e o coração dela diria que sim.

O executivo deixou de pensar nas taxas de juros, na cotação do dólar, nos melhores investimentos, agora só conseguia pensar no sofrimento de sua mulher, na tristeza de suas filhas pela falta do pai, nas corridas no calçadão de Ipanema. Não conseguia entender porque não pagavam a droga do resgate aos seqüestradores, não era todo dia que o dinheiro podia salvar uma vida, para que então servia toda aquela fortuna que conseguira ao longo da vida?

Cansou de esperar que os outros fizessem algo por ele e decidiu tomar uma atitude por si, foi a primeira vez desde que fora seqüestrado que buscou ajuda dos céus, pediu a energia que move o mundo para lhe dar uma segunda chance, disse que todo ser humano merecia quantas chances fossem possíveis desde que sua vontade de mudança viesse do fundo do coração, porque ninguém sabe realmente qual a sua missão na Terra, então era preciso muitos recomeços para se encontrar aquele com final feliz. Não prometeu nada em troca, promessas traziam consigo uma carga de culpa se elas não pudessem ser cumpridas, apenas decidiu ouvir mais sua alma, fazer mais o que ela pedia, saciá-la antes que começasse a corroer-se.

No dia seguinte o cativeiro foi estourado pelos policiais, os seqüestradores foram presos e o executivo libertado. Ele estava irreconhecível, barba enorme, cabelos desgrenhados, há muito tempo sem tomar banho, perdera alguns quilos, rosto completamente abatido. Mas estava vivo, era o seu recomeço, a chance que pedira a força que conduz o universo.

O recomeço não foi nada fácil, depois de tanto tempo envolto as trevas era difícil acostumar-se com a luz novamente, exigia um grande esforço de superação e força para sair da inércia que se encontrava. O primeiro passo foi buscar ajuda psicológica, se não pudesse vencer seus medos, ao menos não deixar que eles lhe paralisassem.

Foi difícil, foi árduo, mas ele conseguiu. Entendeu que não conseguiria retomar a vida de antes, era preciso começar de forma diferente para terminar de forma diferente.

O executivo não mudou de país, não mudou de Estado, não mudou de cidade, não mudou de bairro, não mudou de rua, não mudou de prédio, não mudou de apartamento, não mudou de carro, não mudou de emprego, só mudou por dentro.

Continuou a doar remessas de dinheiro para instituições de caridade, a diferença era que ao menos uma vez por mês visitava os locais para que as doações que fazia fizessem sentido ao seu coração, até então ele doava seu dinheiro, mas esse dinheiro nunca vinha junto com seu amor.

Voltou a correr no calçadão de Ipanema, desta vez “vendo” a paisagem por inteira, os mendigos deitados nos bancos, as crianças pedindo dinheiro nos semáforos, a mulher pegando latinhas de alumínio das lixeiras para conseguir algum dinheiro para comer e o mar da praia de Ipanema ao fundo. Tudo isso vazia parte de seu mundo, aceitou que essa também era a sua realidade.

Aceitar para o executivo não significava deixar para lá, aceitar para ele significava buscar mudança, porque tudo aquilo fazia sua alma ficar inquieta, sua paz aparente antes do seqüestro tinha sumido por completo, ele deixou de ser uma ilha para se tornar um arquipélago.
Conversou com os mendigos sendo um ombro amigo, encaminhou as crianças do semáforo para centros educativos, comprou uma barraquinha de coco para a mulher que pegava latinhas, passou a ter mais tempo para a família e para os amigos, engajou-se em uma campanha para deixar as praias limpas, do mesmo modo que estava fazendo com sua vida.

Percebendo a mudança interior que seu marido passava, a mulher do executivo perguntou:

– O que você tem?

Ele poderia responder das mais diferentes formas, tinha tanto que não saberia nem por onde começar, foi o mais sincero possível:

– Eu não tenho nada querida, eu não tenho nada.

* John Donne, poeta inglês.


Um momento de cada vez

Um grande sábio estava fazendo uma palestra na cidade de Madri. Depois de subir ao palco sua primeira pergunta foi:

– O que vocês vão fazer no próximo segundo?

Toda a platéia ficou calada surpreendida pela indagação, então o sábio disse:

– Tarde demais, já perderam esse segundo pensando no que fariam. – fez uma rápida pausa, depois continuou. – A maioria das pessoas faz exatamente o que vocês fizeram neste momento, pensam no que vão fazer para o futuro e esquecem de viver o presente, então aos poucos começam a se sentir frustradas na vida porque têm a sensação de nunca terem realizado algo de concreto. Estão sempre planejando, mas nunca executando.

Uma mulher sentada na primeira filha levantou o braço e interpelou:

– Então quer dizer que não devemos nos planejar para o futuro, deixar que tudo aconteça de forma casual? Se isso acontecer poderá haver graves conseqüências, talvez erros irreparáveis!

O sábio tinha um sorriso no semblante quando respondeu a pergunta.

– Você tem razão, ninguém vence uma maratona se não tiver se preparado anteriormente, o mesmo é com a vida em geral, ninguém consegue ser bem sucedido quando deixa de planejar.

Os convidados ficaram confusos, as duas respostas do sábio pareciam contraditórias. A mulher perguntou novamente:

– Então nós devemos ou não planejar para o futuro?

– Devem, mas a grande pergunta é: o que vocês planejam para o futuro?

O sábio apontou para um homem que estava ao lado da mulher que fizera a pergunta e ele respondeu que estava planejando trocar de carro no mês que vêm. Outros responderam que estavam pensando em trocar de casa, mudar de emprego, casar-se, divorciar-se e muitas outras respostas.

– Percebem o que eu digo? Todos esses planos são válidos, mas só funcionam quando combinados com outro plano, muito mais prioritário, o de ser feliz. Os mais espertinhos podem argumentar que para serem felizes é necessário realizar tais planos para o futuro, porém, se esse pensamento prevalecer, vocês nunca serão felizes, porque a felicidade sempre estará no futuro, uma busca interminável porque a humanidade nunca pára. Acontece o efeito dominó, “serei feliz quando estiver trabalhando no emprego dos meus sonhos, serei feliz quando achar o grande amor da minha vida, serei feliz quando…”, sempre “quando”. Então Deus nos dá o que queremos e em pouco tempo chega à sensação que não somos mais felizes, surge uma nova busca, uma nova vontade, e assim se sucede até o final de nossas vidas sem nunca termos sentido felicidade de verdade, aquela que sai de dentro.

– Seja mais objetivo. – gritou um homem no fundo do salão.

– Claro. Planejem suas vidas o quanto e o quê acharem necessário, porém não associem essas buscas com sua felicidade atual, sendo felizes no presente independentemente do que almejam. Assim de forma automática serão felizes no futuro, porque ele é o momento seguinte. – sua palestra estava terminada, não havia mais nada para ensinar. – Que todos vão em paz, e lembrem-se: se você não consegue ser feliz com o que tem, você também não será feliz com o que terá, seu descontentamento sempre será com o “ter”.


Amor eterno

Conheceram-se ainda quando eram crianças, mesmo com a pouca idade que tinham, logo no primeiro instante em que se viram, o amor surgiu.

Ele era muito tímido e por isso foi ela que disse o primeiro “oi” que depois se tornaram muitos. Passaram a se ver quase todos os dias, estar ao lado do outro era dar sentido ao dia.

Não se sabe o que surgiu primeiro, se foi o amor ou a amizade, mas o primeiro beijo veio aos doze anos de idade para os dois, naquele momento o mundo girou mais lentamente, ou seria mais depressa? As emoções se confundiam na imensidão do amor.

Os anos se passaram e eles se tornaram jovens loucamente apaixonados, agora viviam um para o outro, e por muitas vezes diziam que eram um só.

Mas como muitas vezes acontece, a vida nos leva a caminhos completamente diferentes daqueles que queremos tomar, e assim aconteceu com aquelas Almas Gêmeas.

Era tempo de guerra e ele foi chamado para servir ao seu país nos campos de batalha. Foram tempos difíceis para ambos, ela sofria pela sua ausência e rezava a Deus com todas as suas forças para que ele voltasse são e salvo dos campos de batalha, enquanto ele também sofria muito pela ausência dela, mas confortava-se em lembrar de seu rosto em meio à miséria e sofrimento.

Foram meses de angústia e sofrimento, mas em fim chegou à notícia de que a guerra tinha acabado e que os soldados estavam voltando para casa.

Então ele voltou, tinha uma medalha estampada no peito, mas ela sabia que ele era o prêmio.

Apesar de todos os acontecimentos ruins, os dois concordaram que a distância só fez aumentar o amor que sentiam um pelo outro.

Foi tanto que no ano seguinte acabaram se casando, seus corações estavam repletos de felicidade, realizavam o sonho de suas vidas, definitivamente se tornavam um só.

Os anos que se passaram foram de extrema felicidade, vez e outra acabavam brigando, mas imediatamente se abraçavam e beijavam pedindo perdão.

Tiveram três filhos e estes seguiram os passos dos pais, se tornado pessoas dignas e de extremo caráter.
Eles gostavam de dizer que seus pais eram “velhos apaixonados”, e assim sempre fora.

Mas novamente as vidas lhes impõem um obstáculo no caminho, ela descobriu que tinha câncer e que a doença estava em estado avançado. Ele chorou e sofreu juntamente com ela, por que a dor dela também era a sua.

O estado se agravou e ela precisou ser internada, ele não saiu nem por um segundo do seu lado, era seu anjo-da-guarda.

Ela começou a perder os sentidos, o fim parecia estar perto, mas ele custava a acreditar. De repente ela abriu os olhos e sorriu para ele, tocou seu rosto e lentamente voltou a fechá-los novamente.

Ele sentiu seu coração apertar, olhou para o aparelho que mostrava a linha tênue entre a esperança e o desespero e soube que estava perdendo o amor da sua vida.

Segurou a mão dela e viu o filme da sua vida passar diante de seus olhos, desde o dia em que a conhecera numa praça repleta de pombos, até o presente momento. E com todo o seu amor que agora era maior que o mundo, disse em seu ouvido:

– Não me arrependo de nenhum momento se quer que passamos juntos, apenas que ainda tenho muito amor a lhe dar. Por favor, volta!

Suas palavras percorreram a imensidão que agora os separavam, e chegaram ao coração de sua amada.

Ela ouviu o seu chamado, estava frente a Deus e este lhe disse:

– O que estás esperando minha filha? Volta que ainda não terminou.

Ela sorriu, virou-se e começou a caminhar novamente para o túnel da vida, uma luz tomou o seu ser e cegou seus olhos.

Quando percebeu, estava caminhando com sua mãe em uma praça repleta de pombos, olhava para um garoto sentado em um banco da praça que lhe chamava muito a sua atenção e ele retribuía o seu olhar.

Mal sabiam eles que aqueles olhares que se cruzavam nunca mais iriam se deixar.