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O nome do amor

Na vida de todo alguém existiu outro alguém. Aquela pessoa que, sem esforço, vira significado de poemas e canções. Diante da inexplicabilidade do amor restam apenas lembranças. Não se pode dissecar o amor porque palavras não o esgotam. O amor carece de carne pra ser visto. Sentimento que se faz explicado no contato quente da vivência. A vida. Tenho por mim que nada sei do amor. Todavia, guardo dentro do peito a certeza de que ao fim da vida, certos alguéns me serão a imagem que tive do amor, do que foi amar. Pai, mãe, irmãos, amigos, sim, tantos e todos esses. Exigente de pele, o amor se torna calidamente melhor entendido quando ganha um nome. Amor não é o nome do amor. Cada um tem o seu. Eu tenho o meu.

Rabiscos do coração

Arrisco aqui rabiscar palavras

Eu leiga. Você poeta.

Mas isso, por certo, não deve importar

O que, de fato, vale são os sentimentos plantados no coração

É como a flor da amizade

Enraizada, forte, imponente, suave… marca sua presença !

A flor do amor

Promove e inspira a vida

Cor aos dias

Perfume embriagador

Beleza estonteante

A flor do encontro – de almas

Que faz o ser buscar o outro ser

Na alegria e na tristeza

Ou mesmo sem um porque

…num silêncio que diz muito

A flor do bem querer

Ah o bem querer!

Traz conforto.

Faz o coração vibrar a cada conquista do outro

ou

se esmigalha com a dor e o medo que o amigo carrega

Sim! Meu jardim floriu com sua chegada!

É hoje mais colorido e entusiasmado

e nele surgem borboletas e joaninhas

de tão sol que é!

Solo fértil para o amor…

É assim. Nosso coração aos poucos se transforma, florece!

Apareceste, então, para ser ombro amigo

Forte e suave

Terno e afável

Doce e acolhedor !

Junto a isso, todas as bênçãos

e gratidão eterna pelo o que a vida me apresentou:

Você e suas sementes.

Sei que toda grandeza de sentimento escapa a letra viva.

Ainda assim, insisto em registrar rabiscos do coração.

Joana Jesus


A leitora

Pergunto-me como vai se sentir
quando descobrir
que fui eu que escrevi isto para ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede todo decorado,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, imagino o que pensa,
morde o lábio e arqueie as sobrancelhas,
mas, escuta – era só uma questão de tempo

até que eu escrevesse algo sem sentido
para imagens e palavras que ganham vida
nas mil faces do Face.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostada no canto preferido da casa
lendo isto sem entender nada,
enquanto o tempo voa,
brincando de passarinho.


Metáfora

Eu? Pés que falam, ouvidos querendo ver, toque melodioso, ruga expressiva, vontade solitária, desejo alado, alma ambiciosa e coração torcido.

Eu? Teimoso que, mesmo trôpego, insiste na trilha estreita. Poeta inebriado de sonhos vividos de olhos abertos.

Eu? Filho da noite comprida, das horas que se arrastam, dos dias velozes. Aventureiro em busca do pergaminho que faz vencer os medos e recomeçar a melodia.


Banzo

Para que não esqueçamos deles que somos nós:

BANZO (Menotti del Picchia)

E pq deixou na areia do Congo
a aldeia de palmas
e pq seus ídolos negros
não fazem mais feitiços
e pq o homem branco o enganou com missangas
e atulhou o porão do navio negreiro
com seus desespero covarde
ele fica na porta da senzala
de mão no queixo e cachimbo na boca,
varado de angústia,
olhando o horizonte,
calado, dormente,
pensando,
sofrendo,
chorando,
morrendo.


Palavras a um amigo poeta

Desejo-te caro amigo e poeta
que faças belíssimas leituras,
que dances lindas canções
acompanhado sempre da pessoa amada.
 
Desejo-te sabedoria e sensibilidade
para apreciar a brisa quente dos verões,
o arrepio gelado dos invernos
e os melhores aromas da primavera.
 
Desejo-te a alegria do carnaval todos os dias
e o frisson envolvente dos blocos de rua.
Desejo-te beijos quentes e apaixonados,
e ao mesmo tempo, braços e abraços para te proteger da solidão.
 
Desejo-te paixões fugazes
cheias de ardor e sofisma.
Desejo-te o Amor com todas as suas faces,
e com isso insisto que conheças o perdão.
 
Desejo-te também, tristeza e melancolia
para que valorize a complexidade da vida.
Desejo que o mundo seja gentil contigo, e se não o for
mostre a ele do que você é feito.
 
Mostre-lhe que em sua composição
há muitas pitadas de coragem,
misturadas com um ar aventureiro e sonhador.
Se possível, conte ainda que há em ti
conhecimento e humildade,
somado ao amor pelo próximo.

E por último não se esqueças caro amigo,
de contar que habita em ti Revolução (comunista e espiritual),
sendo assim encerro,
desejando a você que viva a plenitude dos dias com a missão
de ser sempre você e de buscar ser completo.

Da pequena irmã torta que te ama e admira,

Francyne Luz.


História e histórias

História e tantas outras histórias
tempo compartilhado,
risadas dividas
E quantas risadas não?

Bares e filosofias
tantas discussões e tantos deuses
revoluções diárias,
revoluções eternas
construção – Re-construção

Amores e desamores
tantas lágrimas de alegria
outras nem tanto (luto).

Relações dialéticas e conflituosas,
afinal somos humanos
(e não deuses como pensávamos).

E assim se vai a vida
a passos largos de um gigante
ontem, cadê? Já foi…

E agora o que restou?

Quando a história a ser encarada, é a nossa
nossa vivência – Sobre – vivência
Mundo cão ou não? Não sei

E agora o que restou?

Paro, penso e pondero
De toda caminhada ficaram
os melhores sorrisos
os melhores amigos
(que a geografia não separa),
as lembranças mais engraçadas
os abraços mais saudosos
as bebedeiras eternas
os vexames,
as conquistas, os exames.

E a História, nossa ciência por opção,
e nossa opção por buscar a ciência.
Ciência que nos liberta e
transforma os venenos da mente em sabedoria
amigos sim, historiadores, quase lá.

Fran Luz